Economia

O segredo que ninguém conta: como a Decathlon inova barato para ‘tocar’ 1 bilhão de pessoas

Clientes testam produtos esportivos em laboratório de inovação da Decathlon para estratégia 2030
No laboratório da Decathlon, consumidores experimentam protótipos antes do lançamento, parte do plano para impactar 1 bilhão de pessoas até 2030.

A Decathlon faturou US$ 19 bilhões em 2025 e colocou 1,2 bilhão de produtos nas ruas, mas o número que guia a estratégia agora é outro: impactar 1 bilhão de pessoas até 2030. Para chegar lá, a varejista francesa está encolhendo o portfólio e apostando em laboratórios onde o cliente testa o produto antes mesmo de ele existir.

A conta parece contraditória: menos variedade para vender mais. Entenda como a dona de marcas como Kipsta e Quechua reorganizou a própria engrenagem para crescer sem repassar a conta ao consumidor.

Menos marcas, mais profundidade

Desde 2024, a empresa reduziu de 30 para 13 o número de marcas próprias principais. O corte não foi estético; visa ganho de eficiência logística e clareza na comunicação. A meta é dobrar o alcance para 2 bilhões de pessoas até 2035 mantendo a promessa de “bem-estar acessível”.

Essa enxugada libera recursos para o que a diretoria chama de “concepção integrada”: juntar design, prototipagem, teste e fábrica no mesmo endereço. O modelo nasceu em Lille, no norte da França, onde a empresa completa 50 anos em 2026.

O maior laboratório de esportes do mundo fica numa antiga fábrica de cigarros

A região metropolitana de Lille abriga cinco dos 19 centros globais de desenvolvimento da Decathlon. São 5 mil colaboradores distribuídos em seis grandes complexos. O mais impressionante é o B’twin Village: 90 mil metros quadrados — o equivalente a 13 campos de futebol — dedicados ao ciclismo e mobilidade urbana.

Lá, fábrica, oficinas de prototipagem, laboratórios e pistes de teste convivem com um restaurante aberto ao público e espaço kids. O produto sai do desenho, vai para a máquina ao lado e, em minutos, está na mão de um ciclista real para validação.

Inovação que cabe no bolso: a regra inegociável

“Não posso inovar com preço alto. Preciso ter certeza de que a inovação será acessível”, resume Sebastién Dollet, head global de inovação. A diretriz vale para tudo: do tênis de corrida à bola de futebol. Se a solução encarece o item final, ela volta para a prancheta.

Essa obsessão por custo-benefício dita o ritmo dos centros. No Footwear Industry Center (FIC), focado em calçados, a equipe desenvolve 300 protótipos por ano a partir de 5 mil referências de componentes. Cada modelo roda em uma minifábrica interna antes da escala. Em 2025, o resultado foram 82 milhões de pares vendidos.

O suor do cliente como dado de engenharia

No Decathlon Fitness Lab, 700 profissionais criam cerca de 5 mil protótipos anuais. O diferencial é a academia acoplada: 8 salas, 3 mil usuários por dia pagando 60 euros/mês. Eles não apenas treinam; testam roupas, equipamentos e dão feedback imediato.

  • Ciclo curto: Projeto padrão leva 15 a 18 meses; 3 meses são só de teste (dado de Michele Ramina, gerente do FIC).
  • Validação real: No Kipstadium (esportes coletivos), mais de 1,5 mil produtos já passaram por quadras e campos abertos à comunidade.
  • Prova de elite: A bola Kipsta é a oficial da Liga Europa, Liga Conferência, Ligue 1 e Ligue 2; a marca fechou parceria com Antoine Griezmann.

Brasil deixa de ser apenas mercado vira centro de criação

A operação brasileira completou 25 anos e já figura no top 10 global da companhia. Com 50 lojas e 2,2 mil colaboradores, o país assumiu a liderança global no desenvolvimento de fitness e beachwear — impulsionado pelo fato de o Brasil ser o segundo mercado de academias do mundo, atrás só dos EUA.

Em abril, a Decathlon lançou com a Consumoteca o estudo “O novo significado do esporte no Brasil”. O dado central expõe a dor do negócio: 93% querem se movimentar, mas só 44% conseguem manter a rotina. As barreiras são custo, falta de motivação, tempo e companhia.

O ‘pertencimento’ como antídoto para o sedentarismo

Para Liana Kerikian, diretora de marketing no Brasil, a comunicação focada em performance e estética afasta o iniciante. A virada de chave está na comunidade. “Quando a pessoa se sente parte de algo, a autoestima muda. Ela não sai mais”, afirma.

O contexto reforça a tese: pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que 1 em cada 3 domicílios brasileiros já teve morador usando canetas de GLP-1. Para a executiva, esse público — que inicia a jornada de saúde por vias médicas — é a porta de entrada para o esporte como estilo de vida, desde que encontre acolhimento, não cobrança.

O que observar daqui para frente

A aposta da Decathlon é que a fidelização nasce da experimentação assistida, não da publicidade. Se o modelo de “fábrica aberta ao público” escalar para além de Lille — e o Brasil é o candidato natural —, a empresa resolve dois gargalos de uma vez: reduz erro de produto (menos encalhe) e cria o tal “pertencimento” que retém o cliente. O termômetro será a taxa de repetição de compra nos próximos ciclos fiscais, especialmente nas categorias fitness e running, onde a concorrência por atenção é mais feroz.