Pela primeira vez desde 2022, 60% dos brasileiros apostam que a economia vai melhorar nos próximos meses. O número é recorde recente, mas esconde uma fratura profunda: a avaliação do passado recente nunca esteve tão dependente do lado político de quem responde.
A pesquisa Datafolha, realizada dias antes do segundo turno, revela um eleitorado otimista com o futuro, porém radicalmente dividido sobre o presente. Entender essa dissonância é essencial para quem decide investimentos, contratações ou estratégias de crédito.
Os números que importam para o seu negócio
O levantamento ouviu 2.520 pessoas em 154 cidades (margem de erro de 2 pontos). A expectativa de melhora para o país saltou de 36% em junho para 60% agora. No bolso do eleitor, a confiança é ainda maior: 66% veem a situação pessoal melhorando, ante 51% há quatro meses.
- País: 60% melhora | 19% igual | 12% piora.
- Pessoal: 66% melhora | 25% igual | 5% piora.
- Jovens (16-24 anos): 72% esperam melhora pessoal.
- Ensino fundamental: 67% veem melhora no país; Superior: 51%.
Mas o retrovisor mostra outro filme. Para 43%, a economia do país piorou nos últimos meses. Em junho, eram 45%. A estabilidade sutil esconde uma guerra de narrativas.
O “efeito óculos”: por que a leitura do passado travou
Entre eleitores de Flávio Bolsonaro (PL), 77% dizem que o país piorou. No eleitorado de Lula (PT), esse número despenca para 7%. A percepção de melhora no mesmo período inverte: 25% contra 7%.
Escolaridade e renda amplificam o viés. Quem ganha mais de 5 salários mínimos e tem curso superior enxerga deterioração (51% e 54%, respectivamente). Quem ganha até 2 mínimos e tem ensino fundamental vê melhora ou estabilidade.
“As pessoas não avaliam a economia de forma isenta; vestem os óculos do seu time”, resume Bráulio Borges, da LCA Consultores e FGV Ibre. Para ele, a polarização afetiva torna os indicadores tradicionais de confiança menos confiáveis para prever comportamento real de consumo e investimento.
O que moveu a agulha nos últimos 120 dias
O salto de otimismo não aconteceu no vácuo. Duas forças empurraram os índices para cima: a agenda legislativa recente e dados macroeconômicos concretos.
- Fim da escala 6×1: Aprovado no Senado, mexe direto na rotina e renda do trabalhador formal.
- Bolsa Família +15%: Reajuste de R$ 22,7 bi para 2027, corrigindo inflação desde a recriação do programa.
- Desenrola 3.0 e MEIs: Compra de carteiras com desconto, perdão de dívida ativa e linha de R$ 5 mil para microempreendedores.
- IPCA-15 a 0,32%: Inflação prévia de outubro abaixo do consenso de mercado.
- Desemprego a 5,3%: Menor patamar da série histórica (2012) para o trimestre até agosto.
Do lado da oposição, promessas de retomada do Perse (setor de eventos), recompra de dívidas familiares e “cashback” via PIX na Caixa também alimentam a expectativa de dias melhores, independentemente do vencedor.
O risco fiscal que o otimismo ignora
Para Pedro Paulo Zahluth Bastos (Unicamp), os dois lados esperam melhora porque ambos prometem “o dia seguinte melhor”. O problema, alertam analistas, é a conta que chega depois da posse.
Borges destaca que a economia “não é ruim”, mas carrega desequilíbrios fiscais não resolvidos. A trajetória da dívida pública e o endividamento das famílias seguem como freios invisíveis: mesmo com emprego em alta, o comprometimento de renda limita o consumo durável e assusta o crédito de longo prazo.
O que observar a partir de segunda-feira
O resultado das urnas vai ditar qual “ótica” prevalece na narrativa oficial, mas os fundamentos continuam os mesmos. Para o gestor, três variáveis mandam mais que pesquisas de opinião:
- Arcabouço Fiscal: Sinalização clara de meta de primário e contenção de gastos obrigatórios.
- Curva de Juros: Reação dos DIs longos ao anúncio de ministério da Fazenda e diretoria do BC.
- Inadimplência Pessoa Física: Se o Desenrola 3.0 reduzir o estoque sem criar moral hazard, o crédito reabre para valer.
O otimismo de 60% é um ativo valioso — ele puxa consumo imediato e reduz prêmio de risco. Mas, como ensina a série histórica, expectativa sem ancoragem fiscal vira frustração rápida. Mantenha o radar no fiscal, não no palanque.
