Economia

O que 73 gestores escondem sobre o Ibovespa pós-eleição

Gráfico do Ibovespa mostra alta de 15,3% em três meses, fechando a 205.082 pontos com dólar a R$ 4,99
Ibovespa sobe 15,3% no pré-eleição e atinge 205.082 pontos enquanto dólar cai para R$ 4,99.

A Bolsa subiu 15,3% em três meses apostando na troca de comando no Planalto. Faltando dois dias para o segundo turno, a euforia virou cautela: o mercado já precificou a vitória de Flávio Bolsonaro ou ainda há gordura para queimar? A resposta divide os 73 maiores gestores do país.

O Ibovespa fechou a sexta-feira aos 205.082 pontos, contra 178.000 no início de agosto. O dólar caiu de R$ 5,08 para R$ 4,99 no mesmo período. O gatilho foi o primeiro turno, quando a vantagem surpreendente do senador derrubou juros futuros e levou o índice acima dos 200 mil pontos pela primeira vez na história.

O raio-X das apostas: ganância de um lado, medo do outro

Um levantamento exclusivo do Citi com gestores de fundos de ações e multimercados desenha dois cenários radicalmente opostos para a segunda-feira. Os números não deixam margem para “meio termo”:

  • Vitória de Flávio: 49,3% veem alta superior a 5% no Ibovespa; 78,1% apostam em valorização do real entre 2% e 5%.
  • Vitória de Lula: 80% projetam queda superior a 5% na Bolsa; 63% esperam desvalorização do real acima de 5%.

A assimetria chama atenção: o otimismo com a oposição é majoritário, mas não unânime. Já o pessimismo com a reeleição é quase consensual entre os profissionais que movem o dinheiro grande.

Se Flávio vencer: continuação ou “venda na notícia”?

Para Ricardo Pompermaier, da Davos Investimentos, a tendência é de continuidade da melhora, com queda dos juros futuros e Bolsa em alta, impulsionada pela expectativa de ajuste fiscal. O dólar, porém, tem espaço limitado para cair mais, travado pelo cenário externo adverso.

Helena Veronese, da B.Side, alerta: parte relevante do movimento já aconteceu após o primeiro turno. “O dólar ainda pode cair, mas o motor principal já girou”, resume. Luccas Fiorelli, planejador financeiro CFP, vê o rali ocorrendo em duas ondas: uma imediata, na confirmação do resultado; outra entre novembro e dezembro, com o anúncio da equipe econômica e o detalhamento dos cortes de gastos.

Quem ganha nesse cenário: small caps (ações de empresas menores sensíveis ao juro), varejo e construtoras. Mas a entrada de estrangeiro — que ficou de fora da alta recente — depende da credibilidade das medidas anunciadas.

Se Lula ficar: a correção que “ninguém espera”

Veronese não economiza palavras: “A chance de uma correção muito mais forte se o Lula ganhar é real, uma reação que vai pegar o mercado bem de surpresa”. Fiorelli estima um tombo de 15% a 20% no Ibovespa, devolving grande parte dos ganhos acumulados desde agosto.

Os setores mais expostos seriam justamente os que mais subiram: small caps, varejo, construtoras e consumo doméstico. Do outro lado, exportadoras, empresas defensivas e o setor de habitação popular tendem a segurar as pontas, beneficiadas pela alta do dólar e pela manutenção das políticas atuais.

Rodrigo Moliterno, da Veedha Investimentos, prevê caos operacional na abertura: investidores tentando desfazer posições montadas na expectativa de alternância de poder, gerando volatilidade extrema nos primeiros minutos.

O risco que ninguém precificou: a execução

Independente do vencedor, Eduardo Amorim, da Manchester Investimentos, lembra o óbvio ignorado pela euforia: “A melhora dos juros reflete possibilidade de alternância, não mudança nos fundamentos”. Ainda não há equipe econômica definida, nem clareza sobre a viabilidade política das reformas prometidas.

Por isso, nem a vitória de Flávio garante caminho livre. Moliterno não descarta realização de lucros imediata mesmo nesse cenário. A continuidade do fluxo estrangeiro exige prova de vida: medidas concretas, não discursos.

O que observar daqui para frente

O fechamento das urnas é apenas o primeiro ato. O roteiro das próximas semanas será ditado por três variáveis: a composição do Ministério da Fazenda, o detalhamento do arcabouço fiscal e a velocidade de tramitação no Congresso. Quem leu até aqui sabe: o mercado precificou a eleição, mas ainda não precificou a governabilidade. Mantenha posições dimensionadas para erro de percurso — a volatilidade promete não dar trégua antes do Natal.