A Índia formalizou uma ofensiva diplomática e financeira para garantir minerais críticos brasileiros, movida pela urgência de quebrar a dependência chinesa no processamento de terras raras e baterias. O memorando assinado em fevereiro entre Brasília e Nova Déli prevê transferência de tecnologia e processamento local, mas o histórico de acordos semelhantes exige cautela.
O governo indiano listou 30 substâncias como essenciais à segurança econômica — lítio, nióbio, grafita, cobalto e terras raras lideram a relação. A China controla hoje 60% da extração global de terras raras e 85% do seu refino, segundo dados do próprio Ministério de Minas indiano. Esse gargalo transformou o abastecimento em questão de segurança nacional para Nova Déli.
O nó chinês que Nova Déli tenta desatar
Keshav Chandra, secretário do Ministério de Minas da Índia, admite que a dianteira chinesa é confortável, mas rejeita o fatalismo. “A tecnologia e as parcerias mudam”, afirmou. A estratégia indiana combina exploração doméstica agressiva — 1.200 projetos de pesquisa até 2031 — com aquisição de ativos no exterior.
A estatal Kabil, criada para prospectar jazidas estratégicas fora do país, já avançou em áreas de lítio na Argentina. O Brasil entrou no radar pela liderança mundial em nióbio e pelas reservas expressivas de grafita, níquel, lítio e terras raras.
US$ 4 bilhões e 50 ativos: o plano agressivo
A Missão Nacional de Minerais Críticos, lançada em 2025, prevê mobilizar cerca de US$ 4 bilhões para garantir ao menos 50 ativos minerais no exterior até 2031. Paralelamente, a Índia centralizou leilões de 24 substâncias e flexibilizou a legislação para atrair capital privado à exploração doméstica.
- Lítio e cobalto: essenciais para baterias de veículos elétricos
- Nióbio: Brasil detém ~90% das reservas globais; usado em aços de alta resistência
- Grafita: componente crítico de ânodos; jazidas brasileiras em fase avançada
- Terras raras: 17 elementos vitais para ímãs permanentes, turbinas e eletrônica militar
Mas o efeito mais relevante aparece na contrapartida exigida pelo Brasil.
Brasil não quer ser apenas exportador de pedra
Vaishali Sahni, diretor da FICCI e líder do Grupo de Trabalho de Comércio do Brics, foi taxativo: “O objetivo não é apenas explorar o minério e ir embora, e sim agregar valor localmente e processar com o Brasil”. Chandra ecoou a posição: “Ter níquel, lítio ou cobalto não significa nada se o país não produzir a bateria”.
O memorando prevê investimentos significativos, transferência de tecnologia e parcerias em áreas específicas. A verificação prática — se haverá plantas de refino, fábricas de precursores de cátodo ou linhas de montagem de células no território brasileiro — será o verdadeiro teste do acordo.
Do etanol aos jatos: a receita do ganha-ganha
A parceria não se limita ao subsolo. O setor de bioenergia oferece um modelo funcional: Brasil e Índia são os dois maiores produtores de cana-de-açúcar e, junto aos EUA, fundaram a Global Biofuels Alliance em 2023. A meta indiana de elevar a mistura de etanol na gasolina para 20% até 2025/26 cria demanda previsível.
Na aviação, a Embraer e a Adani Defence & Aerospace anunciaram em fevereiro a instalação de uma linha de montagem final do jato regional E175 na Índia. O acordo prevê cadeia completa de fornecedores, serviços pós-venda e treinamento — uma aplicação direta do programa “Make in India”.
O que observar daqui para frente
Três indicadores dirão se a parceria mineral sai do papel: (1) anúncio de unidades de processamento de terras raras ou precursores de bateria no Brasil com capital indiano; (2) cronograma de investimentos da Kabil em jazidas brasileiras de lítio e grafita; (3) evolução do acordo de aço assinado em paralelo, que pode viabilizar integração de nióbio em ligas de alta performance. Para o investidor, o sinal verde virá de contratos de offtake de longo prazo com cláusulas de processamento local — não apenas memorandos de entendimento.
