Cultura

O segredo que o algoritmo esconde: por que dependemos de vazamentos para conhecer as Big Techs

Cena de 'O Outro Lado das Redes': Jeff Horwitz e Frances Haugen na redação do WSJ com vazamentos sobre Big Techs
O filme expõe como vazamentos de insiders como Frances Haugen revelam os segredos dos algoritmos das Big Techs.

Estreia nesta quinta-feira (22) a sequência tardia de “A Rede Social”, mas Mark Zuckerberg não é mais o protagonista. Em “O Outro Lado das Redes”, Aaron Sorkin troca o fundador pelo jornalista Jeff Horwitz e pela delatora Frances Haugen, expondo uma verdade incômoda: só conhecemos as entranhas das plataformas porque alguém arriscou tudo para vazá-las.

O filme transforma a redação do Wall Street Journal em cenário de thriller político, lembrando “Todos os Homens do Presidente”. A pergunta que fica no ar é simples: se a transparência depender de vazamentos, quem fiscaliza o poder algorítmico que molda a vida de 3,64 bilhões de pessoas?

O modelo de negócio da indignação

A trama central revela a decisão deliberada de priorizar o “engajamento” a qualquer custo. Documentos internos mostram que o algoritmo amplificava rage baits — conteúdos sensacionalistas e muitas vezes falsos desenhados para provocar raiva.

Essa escolha de engenharia não era um efeito colateral; era a estratégia. O resultado direto, segundo os arquivos vazados, foi o crescimento de grupos extremistas, a piora da saúde mental entre adolescentes e até o recrutamento digital por cartéis de drogas. O lucro vinha da polarização.

A caixa-preta de 3,64 bilhões de usuários

O roteiro destaca a blindagem corporativa. Um personagem fictício de Relações Públicas alerta funcionários: jornalistas caçam fontes até em apps de namoro. O contrato de confidencialidade protege segredos comerciais, mas sela o silêncio sobre riscos sistêmicos.

  • Base ativa: 3,64 bilhões de contas entre Facebook, Instagram e WhatsApp.
  • Mecanismo de controle: Acordos de não-divulgação (NDAs) rigorosos e cultura de medo interno.
  • Consequência: A sociedade descobre falhas graves anos depois, via imprensa, não por prestação de contas voluntária.

Essa opacidade rendeu 47 ações coletivas nos EUA apenas após a publicação dos Facebook Files, em setembro de 2021.

A conta de US$ 17 bilhões e o fim da rolagem infinita

A pressão jurídica surtiu efeito prático. Em agosto de 2024, 29 dessas ações resultaram em acordo histórico: multa de US$ 17 bilhões e compromissos operacionais concretos.

Entre as medidas impostas estão o fim da rolagem infinita para menores e o bloqueio noturno de notificações para crianças e adolescentes. No Brasil, o Instituto Alana já acionou o Ministério Público para replicar as regras, baseando-se no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Mas o advogado João Aguiar alerta: mesmo com a multa bilionária, a receita da big tech segue intacta e a supervisão setorial continua frouxa comparada a bancos ou telecom.

O pêndulo ideológico de Menlo Park

Se a justiça avança devagar, a política muda ao sabor do vento. Em 2021, após o ataque ao Capitólio, Zuckerberg baniu Trump e reduziu alcance de política no feed. Quatro anos depois, com o republicano de volta à Casa Branca, o CEO desmantelou checagens, flexibilizou discurso de ódio e reativou a distribuição de conteúdo político.

“Nada é mais mercadológico do que a falta de coerência ideológica”, resumiu o cientista político Felipe Gretschischkin, do Cebrap. A regra do jogo é a maximização do acionista; a moderação é variável dependente do ciclo eleitoral americano.

O caso brasileiro: quando a falha vira ferramenta eleitoral

O debate não é teórico. Um vazamento revelado recentemente mostrou que falhas técnicas da plataforma prejudicaram um candidato e beneficiaram o concorrente em disputa presidencial no Brasil. A nota oficial falava em “instabilidade global”; os diálogos internos provavam assimetria no impacto.

Foi a divulgação de conversas entre engenheiros no exterior e a equipe local que expôs a realidade. Sem o vazamento, a versão corporativa seria a única versão.

O que observar daqui para frente

Nos EUA, a autorregulação segue falhando: não há lei federal de transparência algorítmica desde 2021. No Brasil, o STF passou a exigir relatórios de transparência diante da inércia do Congresso.

Para o empresário e o investidor, o sinal é claro: o risco regulatório deixou de ser “futuro” para ser “corrente”. A dependência de delatores para auditar algoritmos que definem mercado, opinião e democracia é um passivo oculto no balanço de qualquer grande plataforma. A próxima rodada de vazamentos — ou a primeira fiscalização efetiva do STF — pode reprecificar esse ativo da noite para o dia.