Flávio Bolsonaro estuda tirar a Caixa e o Banco do Brasil do guarda-chuva da Fazenda e submetê-los a um superministério social caso vença o segundo turno no domingo (25). A manobra tem nome e sobrenome: Daniella Marques. Mas a estratégia racha a própria equipe de campanha e acende um alerta para investidores e gestores de fundos públicos.
O desenho do “Ministério da Prosperidade”
A pasta — batizada provisoriamente de Ministério da Prosperidade — nasce com a promessa de unificar políticas para mulheres, empreendedorismo e trabalho. Hoje, ambos os bancos respondem tecnicamente ao Ministério da Fazenda. A mudança de endereço administrativo não é apenas burocrática; ela altera a governança do crédito direcionado e a política de dividendos das duas instituições.
Daniella Marques, ex-presidente da Caixa no fim do governo anterior, é a favorita para comandar a estrutura. Ela carregaria, sob sua alçada, uma carteira de crédito imobiliário superior a R$ 600 bilhões e a operação do Bolsa Família.
A fidelidade que vale um ministério
A escolha de Marques não é técnica, é política. Ela manteve-se leal a Flávio durante o atrito público com Michelle Bolsonaro, episódio que ameaçava o voto feminino — decisivo nas urnas. A recompensa veio na forma de um ministério desenhado sob medida para seu perfil de gestão.
- Vice bloqueada: Marques cogitou a vice-presidência, mas o Republicanos vetou a aliança com o PL.
- Fazenda descartada: Seu nome perdeu força para a equipe econômica central na reta do primeiro turno.
- Consolo estratégico: Turbinar a pasta social com os dois bancos públicos equilibra a balança de poder interno.
Por que a ideia divide generais da campanha
Auxiliares diretos alertam: a Caixa não é só agente social. O banco executa o Minha Casa, Minha Vida, financia obras regionais e funciona como moeda de troca política com o centrão. Hoje, a presidência da Caixa pertence a Carlos Vieira, indicação de Arthur Lira (PP-AL). O BB, por sua vez, é chefiado por Tarciana Medeiros, nome do PT.
Entregar esse controle a um ministério nascente, sem estrutura testada, pode paralisar liberações de crédito e travar negociações parlamentares já no primeiro semestre de 2027.
O precedente de 2022 e os R$ 9,5 bilhões
Quem duvida do viés eleitoral da máquina pública deve olhar o retrovisor. Em outubro de 2022, sob gestão de Marques, a Caixa liberou R$ 7,6 bilhões em consignado para beneficiários do Auxílio Brasil — de um total de R$ 9,5 bilhões no sistema. A linha foi suspensa dias após a derrota no segundo turno e extinta na gestão seguinte.
O TCU abriu processo para apurar uso eleitoral da estrutura, mas o caso foi arquivado em 2024. O episódio, porém, deixou cicatrizes na área de compliance dos bancos e serve de parâmetro para o que pode se repetir.
Privatização do BB: ruído real ou blefe de campanha?
Em setembro, em evento do Grupo Esfera, Marques afirmou que “até o Banco do Brasil poderia” ser privatizado, citando que a ação negocia abaixo do valor patrimonial. A fala gerou pânico interno no BB e forçou o coordenador econômico Adolfo Sachsida a gravar vídeo negando qualquer privatização de BB, Caixa ou Petrobras.
O recado foi claro: “Fortaleça a gestão, não venda o ativo”. Ainda assim, o mercado precifica um prêmio de risco nas ações do BB (BBAS3) até que a composição do novo governo se defina.
O que o programa de governo promete de concreto
No plano registrado no TSE, a Caixa deixa de ser “apenas operadora de benefícios” para virar o “Banco da Prosperidade”. A bandeira é o programa Ganha-Ganha: o cliente acumula pontos ao concluir cursos de qualificação ou formalizar negócios. Esses pontos viram juros menores, cashback e crédito facilitado.
O Banco do Brasil, curiosamente, não aparece no documento. A omissão deliberada alimenta a tese de que o banco seguiria na Fazenda — ou que seu destino será decidido apenas após a posse, longe dos holofotes da campanha.
O que observar daqui para frente
Se Flávio vencer, a primeira semana de governo dirimirá três dúvidas críticas: (1) Marques assume mesmo a pasta social com os dois bancos? (2) Sachsida ou outro nome técnico assume a Fazenda com autonomia para blindar as estatais? (3) O centrão aceita perder a Caixa sem retaliar no Congresso? Para o investidor, a sinalização de governança dos primeiros 30 dias valerá mais que qualquer promessa de palanque.
