Investidores estrangeiros elevaram para 12,2 milhões os contratos em aberto de opções do EWZ — o ETF brasileiro em Nova York — nas vésperas do segundo turno. A aposta majoritária prevê alta de 10% na Bolsa, mas a corrida por proteção contra queda cresceu mais que o dobro.
Esse movimento contraditório expõe um mercado paralisado pela incerteza eleitoral. A pergunta que fica: quem vai pagar a conta se a volatilidade desabar na segunda-feira?
A montanha-russa dos contratos em aberto
Dados da quarta-feira (21) mostram um salto de 28% no interesse aberto total do EWZ frente ao pré-primeiro turno (9,5 milhões). Do montante atual, 8,7 milhões são calls (aposta de alta) e 3,5 milhões são puts (aposta de queda ou hedge).
A proporção de puts subiu de 31% para 41% no período. Em valores absolutos, a proteção cresceu 52%, enquanto as compras direcionais avançaram apenas 19%.
- Preço do EWZ na quinta (22): US$ 41,80
- Strikes mais negociados (calls): US$ 44 a US$ 51
- Alvo implícito das calls: Ibovespa próximo dos 225 mil pontos
- Vencimentos concentrados: entre 6 e 20 de novembro
Segundo Marcos Praça, da ZERO Markets, o estrangeiro está precificando um “rally de alívio” imediato. Porém, a aceleração dos puts sinaliza que ninguém quer ficar descoberto se o cenário virar.
Por que o “seguro” ficou caro demais
A volatilidade implícita — termômetro do medo — explodiu. Papéis que operavam a 35% de vol saltaram para 60% ou 80%. No índice de small caps, o prêmio das opções chegou a subir dez vezes.
Fernando Siqueira, da Eleven Financial, explica: a estrutura dominante são “travas”. O investidor compra a call para surfar a alta, mas financia parte do custo vendendo outra call ou comprando put. Ganho limitado, perda limitada.
Luciano Sousa, analista CNPI-T, nota que o interesse aberto para dezembro “aumentou agressivamente”. Tudo travado. A expectativa é repetir o primeiro turno: disparada forte na abertura, seguida de realização nos dias subsequentes.
O risco invisível que ninguém comenta na segunda-feira
O gestor anônimo de uma casa independente alerta para a armadilha da volatilidade implícita. Na segunda, a Bolsa pode até subir, mas as opções podem não reagir.
Se a volatilidade colapsar de 80% para 40%, o prêmio derrete. Quem pagou caro pela call vê o ativo subir e a opção cair — o clássico “ganhar no ativo, perder no derivativo”.
Do lado local, a B3 confirma o pânico controlado: a demanda por puts (hedge) subiu mais de 90% entre o pós-primeiro turno e o dia 20 de outubro. O cenário segue binário.
Cenários binários: o que observar daqui pra frente
Se o candidato da oposição vencer: reação positiva, porém mais contida que a do primeiro turno, pois parte da alta já está no preço. Se o atual presidente vencer: correção forte no Ibovespa e no real, devolvendo ganhos acumulados desde o dia 2.
O gatilho decisivo não é o resultado em si, mas a velocidade da volatilidade. Quem comprou opções caras precisa de um movimento direcional violento e rápido para compensar o theta (decaimento do tempo) e o vega (queda da vol). Sem isso, o “seguro” vira prejuízo certo.
Fique de olho na abertura de segunda: volume de negócios no EWZ, comportamento do dólar futuro e se o Ibovespa rompe os 204 mil pontos com sustentação. A liquidez nas primeiras horas ditará se as travas viram lucro ou pó.
