Economia

O segredo que ninguém conta: por que a bolsa cai seja qual for o vencedor na segunda

Gráfico do Ibovespa em queda com símbolos de eleição presidencial brasileira e análise de mercado
Ibovespa deve recuar na segunda-feira independentemente do vencedor da eleição presidencial

Na próxima segunda-feira (27), o Brasil conhece seu próximo presidente, mas o mercado já tem um diagnóstico: o Ibovespa vai recuar independente do resultado. A avaliação é de Juliano Custódio, CEO da EQI, uma das maiores casas de análise do país.

O motivo não é ideológico. É aritmético.

Por que a festa acabou antes de começar

O índice subiu demais nas últimas semanas. Parte do movimento precificou juros mais baixos e um ajuste fiscal crível. Custódio resume: “a bolsa subiu demais”. Agora, o choque de realidade bate à porta.

Se Lula vencer, o mercado leva um “balde de água fria”. Analistas cogitam até circuit breaker. A reprecificação para Selic menor desmancha-se: sem ajuste crível, a taxa básica permanece elevada por mais tempo.

Se Flávio Bolsonaro levar, a euforia dá lugar à conta de chegar. O presidente eleito herdará a obrigação de entregar um ajuste fiscal na casa dos bilhões — algo que exige tempo, articulação política e credibilidade.

O que o mercado quer, afinal?

Não é lado. É juro baixo.

Investidores analisam propostas e apostam em quem tem mais condições de entregar taxas menores. “Não é sobre a pessoa. É sobre quem pode trazer juros mais baixos para que as empresas sofram menos”, diz Custódio.

Os números que não mentem

A dívida bruta do governo geral (DBGG) fechou agosto de 2026 em 82,9% do PIB, equivalente a R$ 11,1 trilhões. Sem ajuste consistente, projeções apontam trajetória perigosa:

  • 107,2% do PIB até 2036 (cenário base)
  • Ultrapassar 100% do PIB entre 2032 e 2035 (estimativas legislativas)

O custo da inação é exponencial. Cada mês sem sinalização clara eleva o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros.

Bolsa barata não significa compra fácil

O Ibovespa negocia a 12,28 vezes preço/lucro (dados da Oceans 14), bem abaixo das 21 vezes do pré-Covid. As empresas estão descontadas porque o serviço da dívida consome o resultado.

Uma queda na Selic faria os lucros saltarem. Mas Custódio alerta: “não é porque muda o governo que o Brasil melhora de um dia para o outro. O ano de 2027 ainda será difícil”.

O Congresso renovado e a variável política

Dos 513 deputados eleitos, 173 estreiam — taxa de renovação de 33,72%. No Senado, dois terços das cadeiras mudam de mãos. A governabilidade dependerá de negociações com uma base fragmentada e inexperiente.

Como a EQI está posicionada

A casa apostou na queda de juros: comprou prefixados, IPCA+ e ativos atrelados à descompressão da curva. “O juro futuro já caiu quase dois pontos percentuais desde o primeiro turno. Não acredito que caia muito mais sem reformas.”

A expectativa é que os vértices curtos convirjam para os longos, estacionando próximos de 12%. Um estudo do BTG projeta Selic a 6,3% ao ano no início de 2028 — condicionado a crescimento com ajuste fiscal consistente.

Dois cenários, duas estratégias

Se Flávio vencer: exposição à economia real via fundos imobiliários, títulos prefixados (públicos e privados) e ações.

Se Lula vencer: continuar capturando renda financeira com juros altos — o chamado “rentismo”. Em vez de financiar empresas, o capital segue emprestado ao governo.

O que observar daqui pra frente

Três sinais definirão o rumo dos ativos nos primeiros 100 dias: (1) a sinalização do novo ministro da Fazenda sobre metas de resultado primário; (2) a velocidade de tramitação da reforma administrativa ou tributária no Congresso renovado; (3) a reação das agências de rating à trajetória da dívida. Quem ler apenas o manchete de segunda-feira perde o movimento real — ele acontece nas entrelinhas do Orçamento.