João Doria, ex-governador de São Paulo e comandante do grupo Lide, confessou a aliados que torce pela vitória de Flávio Bolsonaro em 2026 e avalia gravar um vídeo público selando esse apoio ainda nesta sexta-feira (23). A guinada expõe um cálculo frio: sem acesso ao Planalto, o empresário aposta no heredero do bolsonarismo para manter a máquina de networking a todo vapor.
Mas por que o homem que rompeu com Jair Bolsonaro em meio a xingamentos públicos agora beija a mão do filho? A resposta passa menos por ideologia e mais pela sobrevivência do seu principal ativo: a agenda de eventos do Lide.
O fato: uma declaração que quebra paradigmas
Segundo relatos de pessoas próximas, Doria afirmou em conversas reservadas ser “contrário à manutenção de um governo Lula” e favorável à eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A assessoria do Lide, procurada, manteve silêncio sobre o teor das falas.
O movimento prevê a gravação de um vídeo de adesão já nas próximas horas. Se confirmado, será o ponto final de uma dança das cadeiras que dura meses nos corredores de Brasília e São Paulo.
O xadrez do Lide: acesso ao poder é moeda forte
O modelo de negócios do Lide depende de uma equação simples: reunir no mesmo salão donos de grandes empresas, ministros do STF, presidentes de estatais e líderes do Congresso. Sem a caneta do Executivo federal, a atratividade dos encontros cai — e com ela, o faturamento e a influência do grupo.
Hoje, a presença do alto escalão petista nos eventos da casa é rara. Doria tentou, sem sucesso, construir pontes com o Palácio do Planalto. A porta fechada no governo Lula empurrou o ex-tucano para o colo da oposição organizada.
- O ativo: Networking de alto nível (empresariado + Judiciário + Política).
- O problema: Isolamento do governo federal atual.
- A aposta: Flávio Bolsonaro como ponte para 2026.
O fantasma de 2022: do “Bolsodoria” ao rompimento ruidoso
Para entender o tamanho da virada, basta lembrar 2022. Doria e Jair Bolsonaro travaram uma guerra pública durante a pandemia, com troca de acusações sobre vacinas, lockdowns e liberdades individuais. O racha custou a Doria a pré-candidatura à Presidência pelo PSDB e acelerou sua saída da vida partidária.
Agora, o alvo não é o pai, mas o filho. Flávio Bolsonaro, por sua vez, vinha ignorando convites do Lide. A recusa do senador em subir ao palco dos eventos de Doria era um sinal claro: o clã Bolsonaro não perdoava o “traidor” de 2022.
Por que Flávio aceitaria a aliança agora?
A política não guarda rancor eternamente quando há capital político em jogo. Flávio lidera a articulação do PL para 2026 e precisa de duas coisas: grana de campanha e aval do establishment econômico. Doria oferece as duas.
O senador ganha um palanque qualificado junto a CEOs de multinacionais e banqueiros que frequentam o Lide. Doria garante a presença da principal liderança da direita nas suas mesas, valorizando o ingresso dos patrocinadores.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: o Judiciário. Ministros do STF e do TSE costumam circular nos eventos do grupo. A foto de Doria e Flávio juntos envia um recado de “normalidade institucional” ao mercado jurídico, essencial para a campanha que se avizinha.
Cenários para os próximos 30 dias
A conferir se o vídeo sai do papel. A assessoria do Lide não confirma nem nega, o que, no jargão de Brasília, costuma significar “estamos ajustando o roteiro”. Três variáveis definem o desfecho:
- Reação do clã Bolsonaro: Jair Bolsonaro endossa o filho ou veta a aliança por mágoa pessoal?
- Resposta do Planalto: O governo Lula tenta recuperar o diálogo com o Lide ou assume o confronto?
- Adesão do empresariado: Patrocinadores do Lide topam dividir a mesa com a chapa Flávio 2026?
O que observar daqui para frente
O movimento de Doria é um termômetro preciso do humor do “mercado” político. Se o vídeo for ao ar e Flávio comparecer ao próximo grande evento do Lide — tradicionalmente lotado de CEOs das 500 maiores empresas do país —, o recado estará dado: a direita organizada já monta a estrutura de poder para 2026 com ou sem Jair Bolsonaro na cabeça de chapa. Para quem vive de antecipar risco político, a ida de Doria para o palanque do filho do ex-presidente não é fofoca de bastidor: é sinal de que o centro de gravidade do capital privado já mudou de endereço.
