Lideranças do centrão articulam nos bastidores para que o senador Flávio Bolsonaro retire o pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes. A movimentação expõe rachas na base de apoio ao ex-presidente e sinaliza uma mudança de estratégia que pode redesenhar as relações entre Congresso e Supremo nos próximos meses.
O recado foi dado em reuniões reservadas: insistir no afastamento do ministro do STF traria mais custos políticos do que benefícios eleitorais. A aposta agora é na negociação direta.
Por que o centrão mudou de lado
Deputados e senadores de partidos como PSD, MDB, União Brasil e Republicanos avaliam que o desgaste de um confronto aberto com o Judiciário compromete a governabilidade e afasta investidores. O cálculo é frio: a instabilidade institucional afeta o câmbio, a bolsa e a previsibilidade jurídica — ativos que o empresariado cobra preservar.
Além disso, a tramitação do impeachment no Senado exigiria dois terços dos votos (54 senadores). Hoje, nem a oposição unificada chegaria a esse número. O risco de derrota acachapante enfraqueceria a narrativa de força perante o eleitorado de 2026.
O que está na mesa de negociação
Em vez do confronto, o centrão propõe uma pauta de “pacificação institucional” com três eixos centrais:
- Revisão de decisões monocráticas do STF que atingem parlamentares
- Regulamentação do artigo 52 da Constituição (crimes de responsabilidade de ministros)
- Acordo para votação de pautas econômicas prioritárias (reforma tributária, arcabouço fiscal)
Fontes próximas às tratativas afirmam que Moraes já sinalizou abertura para dialogar sobre o primeiro ponto, desde que o impeachment seja arquivado.
Impacto direto no cenário econômico
O mercado reagiu com alívio moderado. O dólar recuou 0,7% na sessão seguinte aos vazamentos das conversas, e o Ibovespa subiu 1,2%. Analistas de risco político, no entanto, alertam: a trégua é tática, não estrutural.
“Enquanto não houver clareza sobre os limites de atuação do Judiciário e do Legislativo, o prêmio de risco Brasil segue elevado”, resume um relatório de uma gestora de recursos com R$ 120 bi sob administração.
O que observar daqui para frente
Três marcos definirão se a negociação prospera ou se o impeachment volta à pauta: a definição do relator no Senado (Davi Alcolumbre ou Rodrigo Pacheco), a posição pública de Jair Bolsonaro — que ainda não se manifestou — e a votação da PEC que limita decisões monocráticas, prevista para abril.
Se o centrão entregar votos para pautas econômicas e o STF ceder em procedimentos, o cenário de curto prazo é de estabilidade. Caso contrário, a pressão de bases bolsonaristas mais radicais pode forçar Flávio a reativar o pedido — e o ciclo de instabilidade recomeça.
