Economia

Etanol no mar: o gigante adormecido de 50 bi de litros

Navio porta-contêineres CMA CGM IRON abastecendo com etanol no porto de Santos
Primeiro abastecimento comercial de etanol para navios no porto de Santos marca estreia de corredor verde global.

A Copersucar iniciou nesta semana o primeiro abastecimento comercial de etanol para navios no porto de Santos, marcando a estreia do primeiro corredor verde do mundo dedicado a esse biocombustível. A operação coloca o Brasil na rota de um mercado potencial de 50 bilhões de litros por ano.

O porta-contêineres CMA CGM IRON, equipado com o primeiro motor tricombustível certificado para etanol do planeta, recebeu o combustível produzido por usinas associadas à comercializadora. O movimento sinaliza uma mudança estrutural na matriz energética do transporte marítimo global.

O navio que inaugurou a era do etanol

A escolha da embarcação não foi por acaso. O motor tricombustível permite alternar entre diesel, metanol e etanol, oferecendo flexibilidade operacional rara na frota atual. Segundo a Copersucar, a tecnologia elimina a barreira técnica que travava a adoção em larga escala.

Até dezembro, estão programados novos abastecimentos para outros navios da mesma armadora. A meta inicial é movimentar 10 milhões de litros ainda em 2024, volume que serve como prova de conceito para a cadeia logística montada às pressas.

Por que 10% muda tudo para o produtor

O setor marítimo consome hoje mais de 270 bilhões de litros de combustível por ano. Se apenas uma fração — 10% — migrar para o etanol, a demanda adicional supera 50 bilhões de litros anuais. Para efeito de comparação, o Brasil produziu cerca de 34 bilhões de litros na safra 2023/24.

  • Demanda marítima global: > 270 bi litros/ano
  • Potencial com 10% de substituição: ~50 bi litros/ano
  • Meta inicial em Santos (2024): 10 milhões de litros

Mas o efeito mais relevante aparece na velocidade da transição da frota.

A engrenagem logística por trás da estreia

Não basta ter o produto; é preciso colocá-lo no navio. A Copersucar ativou um ecossistema próprio: o etanol sai das usinas associadas, é transportado pela Evolua Etanol, armazenado nos terminais da AGEO e, por fim, transferido para a embarcação no terminal da Santos Brasil.

Essa verticalização reduz custos de transbordo e garante rastreabilidade de carbono — exigência crescente nos contratos internacionais de frete. A estrutura já existe; o desafio agora é escalar a frequência das operações.

A frota que vem aí e o tamanho do prêmio

Dados da classificadora Det Norske Veritas (DNV) mostram o tamanho da oportunidade: atualmente, 159 embarcações já operam com motores preparados para metanol, tecnologia compatível com etanol. Mais de 450 novos navios com essa configuração devem ser entregues até 2030.

Cada nova embarcação representa um contrato de abastecimento recorrente por décadas. A janela para o Brasil se consolidar como fornecedor preferencial está aberta agora, antes que outros produtores — como os EUA, com etanol de milho — estruturem corredores semelhantes.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis definirão se o piloto vira rota definitiva: a regularidade dos abastecimentos no terminal da Santos Brasil, a certificação de carbono aceita pelos armadores europeus e asiáticos e a disposição das usinas em priorizar volume para o mar em detrimento do mercado interno ou de exportação tradicional. O primeiro navio já zarpou; a frota seguinte está a caminho.