Economia

O segredo que o FMI não conta: recuperação econômica… para quem?

Dono de loja de ferragens em Buenos Aires olha para prateleiras vazias, simbolizando crise da classe média argentina
Gustavo Raul Perez frente à sua loja: inflação caiu, mas custos triplicaram e clientes sumiram.

Gustavo Raul Perez votou em Javier Milei, mas hoje vê sua loja de ferragens em Buenos Aires sangrar enquanto os indicadores macroeconômicos comemoram. A inflação despencou de 300% para 33%, o FMI aplaude e o capital externo retorna, mas o custo de reabastecer o estoque triplicou e a clientela evaporou. “Havia uma classe média há três anos. Ela não existe mais”, resume ele.

Esse abismo entre a planilha dos investidores e a realidade da rua não é exclusividade argentina. Do Marrocos ao Sri Lanka, passando pela Nigéria e pelo Egito, o roteiro se repete: reformas ortodoxas estabilizam as contas públicas, mas empurram o custo de vida para um patamar insustentável para a maioria.

O mapa da desconexão: números que não fecham

As economias emergentes crescem cerca de 4% ao ano, o dobro do ritmo dos países ricos. O investimento estrangeiro direto no Marrocos quase dobrou em 2023. No papel, o remédio funcionou: subsídios cortados, câmbio flutuante, juros altos. Na prática, o paciente sente dor aguda.

  • Argentina: Inflação controlada, poder de compra derretido.
  • Sri Lanka: Saída do calote, pobreza acima do nível pré-crise.
  • Nigéria: Fim de subsídios de combustível, protestos nas ruas.
  • Marrocos: Arranha-céus novos, desemprego jovem explosivo.

Para Torbjorn Soltvedt, da Verisk Maplecroft, o risco médio global de agitação social atingiu o pico de quase uma década. O ministro das Finanças da Nigéria foi direto: ignorar a desigualdade é “sentar-se sobre pólvora”.

Por que não havia “outra escolha”?

Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, argumenta que a alternativa era um “abismo” de perda total de investimentos. A pandemia e a guerra na Ucrânia forçaram a mão dos governos: cortar gastos, liberalizar preços, subir juros. O resultado técnico veio rápido — a confiança voltou. O custo político, porém, chegou na mesma velocidade.

Nas economias ricas, alimentos pesam 13% a 14% no orçamento familiar. Nos emergentes, essa fatia salta para 30% a 50%. Quando o preço do arroz ou do combustível sobe, não há colchão fiscal que amorteça o golpe imediato. No Sri Lanka, a vendedora Sirimodara acorda antes das 5h para manter o lanche a US$ 2, absorvendo a alta dos insumos para não perder o cliente. “Temos tantas despesas”, diz ela, calculando a mensalidade do filho e a aula de dança da filha.

Duas velocidades e uma bomba demográfica

Anass Sayad, engenheiro em Casablanca, aponta para a Casablanca Finance City: estádios e torres de vidro. “A educação e a saúde merecem mais atenção”, contrasta. O Banco Mundial estima que 1,2 bilhão de pessoas entrarão em idade ativa nos países em desenvolvimento na próxima década. A pergunta que assombra ministros e CEOs é única: os investimentos atuais gerarão empregos formais e bem pagos o suficiente para absorver essa onda?

Se a indignação social frear as reformas — como alerta a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva —, o risco não é apenas político. É o travamento do motor que deveria fechar a lacuna de renda em relação ao mundo desenvolvido. Protestos já cruzaram o Atlântico Norte (França, Itália, Espanha), mas lá a capacidade de amortecimento fiscal é infinitamente maior.

O que observar daqui para frente

O calendário de 2025 e 2026 será decisivo. Observe três variáveis: a velocidade da recomposição real dos salários frente à inflação de alimentos; a capacidade dos governos de expandir redes de proteção social sem furar o teto de gastos; e a resposta do capital privado — se o fluxo de investimento produtivo (fábricas, tecnologia, infraestrutura) supera o financeiro especulativo. Sem geração de renda na ponta, a “recuperação” continua sendo um conceito de relatório, não de mesa de jantar.