O Ministério de Minas e Energia abriu consulta pública para desenhar o futuro da recarga de veículos elétricos no país. As vendas dispararam 70% frente a 2025, mas a infraestrutura não acompanhou o ritmo. O diagnóstico expõe um abismo geográfico que poucos investidores estão precificando.
A pasta deu 30 dias para que agentes de mercado, concessionárias e sociedade civil apontem barreiras legais, regulatórias e técnicas. O objetivo declarado: integrar a rede de carregamento ao planejamento energético nacional antes que gargalos virem apagões localizados.
O mapa que assusta quem opera frota ou investe em imóveis
O Brasil tem hoje 29.866 pontos públicos e semipúblicos de recarga. Parece muito — até você ver a concentração. São Paulo sozinho concentra 26,3% deles. Some os três estados do Sul e a conta salta para 50,7% do total.
No outro extremo, os sete estados do Norte somam míseros 3,4%. Para quem planeja logística de última milha, expansão de redes de varejo ou condomínios inteligentes, esse desequilíbrio define onde o negócio é viável e onde vira prejuízo certo.
Números que o mercado já precificou (e outros que não)
- 381.609 emplacamentos de leves eletrificados de janeiro a setembro
- 19,8% de participação nas vendas de leves apenas em setembro
- R$ 130 bilhões em investimentos anunciados por Stellantis, VW, Toyota, GWM e BYD até 2030
- 600 mil unidades/ano: meta da BYD ao dobrar capacidade em Camaçari (BA)
O governo admite: a eletrificação é tendência estrutural, não onda passageira. A entrada de montadoras estrangeiras com fábricas locais mudou a equação de oferta — e o planejamento energético precisa correr atrás.
O desafio invisível: não é só energia, é onde e quando
A projeção oficial aponta consumo de 15 TWh para eletromobilidade em 2036. Parece administrável no agregado. O problema é a distribuição espaço-temporal: picos simultâneos em garagens corporativas, condomínios verticais, centros logísticos e corredores rodoviários.
Essas concentrações localizadas podem sobrecarregar circuitos de distribuição e transformadores que não foram dimensionados para esse perfil de carga. Quem opera ativos imobiliários ou planeja expansão de rede varejista precisa internalizar esse custo de adequação — que hoje não está nas planilhas da maioria.
O que observar daqui para frente
A consulta pública é o primeiro movimento regulatório estruturado. As contribuições recebidas nos próximos 30 dias vão ditar se o caminho será incentivos fiscais, obrigatoriedade em novos empreendimentos, tarifas diferenciadas por horário ou padronização de conectores.
Para o tomador de decisão, o sinal claro: projetos que dependam de recarga em escala — seja frota própria, seja serviço a terceiros — devem incorporar cenários regulatórios e de capacidade de rede agora. Quem esperar a norma final publicada perde a janela de adequação a custo controlado.
