Tecnologia

O boom da IA fez a tinta cinza virar ouro: vendas triplicam e ninguém percebeu

Lata de tinta intumescente cinza PPG para proteção contra incêndio em data centers de IA
A tinta "marshmallow" da PPG que expande no fogo e protege servidores de IA bilionários.

A PPG, gigante de revestimentos industriais avaliada em US$ 24 bilhões, projeta triplicar suas vendas para data centers em 2024. O motivo? A corrida por infraestrutura de inteligência artificial transformou um produto técnico e invisível em item estratégico.

Mas o que uma lata de tinta cinza tem a ver com chips de última geração? A resposta está no fogo — e no que acontece quando ele ameaça milhões de servidores.

O “marshmallow” que protege bilhões em hardware

No laboratório da PPG em Pittsburgh, apelidado de “o bunker”, o químico Paul Fenton demonstra o Steelguard 951. Um maçarico atinge um painel de aço coberto por um milímetro de revestimento cinza. Em segundos, a tinta expande para quase dez milímetros, formando uma crosta preta porosa.

O princípio é simples: o ar aprisionado na espuma carbonizada isola o aço do calor. “É como um marshmallow tostado”, resume Fenton. Sem essa barreira, o fogo amoleceria a estrutura em minutos, colapsando o data center.

Outro produto, o Pitt-Therm 909, resolve um problema diferente: mantém tubulações de água gelada sem condensação. Gotas caindo sobre equipamentos elétricos de alta tensão seriam catastróficas.

Números que explicam a corrida

  • Crescimento projetado: 3x nas vendas para data centers em 2024 vs. 2023
  • Faturamento trimestral total da PPG: US$ 4,5 bilhões (alta de 7%)
  • Custo de revestimentos por data center: US$ 3 milhões a US$ 8 milhões
  • Data centers nos EUA: ~5.500 (dez vezes o 2º colocado)

A Sherwin-Williams, concorrente direta, reportou crescimento de dois dígitos médios na divisão de revestimentos de proteção — impulsionado pela mesma onda. A presidente Heidi Petz resume: “Velocidade importa”.

Por que cinza? E por que agora?

Quase não há pessoas dentro de data centers modernos. Máquinas não ligam para estética. A PPG oferece três tons: cinza-claro, cinza e cinza-escuro. A vice-presidente Jenn Solcz é direta: “Estética não está entre as principais preocupações dos nossos clientes”.

O boom começou há três anos, pós-ChatGPT. Empreiteiras e fabricantes de estruturas metálicas passaram a disputar contratos em prazos recordes — data centers saem em um terço do tempo de obras convencionais. A PPG respondeu criando equipes dedicadas: uma para as big techs, outra para arquitetos e engenheiros na fase de especificação.

O pacote completo: além do fogo

Em feira setorial em Washington, a PPG lançou kit específico para data centers. Inclui:

  • Proteção passiva contra incêndio em estruturas metálicas
  • Primers anticorrosão para fundações e áreas externas
  • Pisos antiestáticos (desenvolvidos do zero para o setor)
  • Revestimentos que bloqueiam interferência eletromagnética

A empresa atende mais de 75 componentes distintos — de carcaças de câmeras a sistemas de refrigeração. Metade das oportunidades está nos EUA, mas há projetos do Brasil à China.

O freio invisível: energia e vizinhos

Nem tudo é expansão livre. Projetos travam à espera de transformadores e capacidade de subestações. A oposição local — ruído, consumo de água, impacto visual — virou variável real no cronograma.

Amy Ericson, VP sênior da PPG, coloca a bola no campo dos donos da obra: “Cabe a elas conduzir essas conversas”. A executiva espera que o segmento cresça “várias vezes” mais rápido que outros mercados de infraestrutura, embora hoje represente dígito único nas vendas de duas divisões.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se o ciclo continua acelerado: a fila de conexão elétrica nas utilities americanas, a velocidade de licenciamento ambiental em estados-chave (Virginia, Texas, Oregon) e a entrada de novos players no fornecimento de revestimentos especializados — hoje dominado por PPG e Sherwin-Williams. Quem especifica primeiro, fatura.