Economia

O abismo entre o PIB e a padaria: o risco que ninguém precificou

Contraste entre gráfico de PIB crescente e padaria vazia na América Latina, simbolizando desigualdade econômica
O crescimento do PIB não chega ao bolso do consumidor na padaria.

As economias emergentes crescem ao ritmo de 4% ao ano — o dobro das nações ricas — e o capital externo voltou a fluir. Mas, nas ruas de Buenos Aires a Colombo, a sensação é de retrocesso. O que acontece quando a “recuperação” que agrada o FMI empobrece quem vota e consome?

O desconforto não é anedótico; é estrutural. E o preço da ignorá-lo pode ser a interrupção abrupta do ciclo de reformas que sustenta a tese de investimento atual.

A fotografia macro que esconde a fratura micro

Os números de gabinete são robustos. A Argentina domou uma inflação de 300% para a casa dos 33%. O Marrocos viu o investimento estrangeiro direto praticamente dobrar em 2023. No Sri Lanka, o calote soberano ficou para trás. Em tese, o remédio funcionou: cortes de subsídios, liberalização cambial e juros altos restauraram a credibilidade fiscal.

O problema é a latência entre o ajuste macroeconômico e a recomposição da renda real. Gustavo Raul Perez, dono de uma ferragem nos arredores de Buenos Aires, resume a equação: seus custos de reposição triplicaram, enquanto a clientela encolheu. “Havia uma classe média há três anos. Ela não existe mais”, diz.

Esse relato replica-se em latitudes distintas. No Sri Lanka, a vendedora Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi acorda antes das 5h para manter o preço do pacote de almoço próximo a US$ 2, absorvendo a alta de insumos. Para ela, a “saída da crise” é um conceito abstrato.

Por que a dor chegou antes da cura

A mecânica é conhecida: a remoção de subsídios de energia e combustíveis e a desvalorização cambial elevam o custo de vida instantaneamente. Já os ganhos de produtividade e a geração de empregos formais — que dependem de investimento privado sustentado — levam anos para aparecer.

Segundo Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, os governantes “não tinham absolutamente nenhuma outra escolha” senão arriscar o desgaste social. A alternativa era o “abismo” da fuga de capitais e da impossibilidade de rolar dívidas. O FMI e o mercado cobraram a fatura; a população pagou a conta antecipada.

O termômetro do risco social bateu recorde

A Verisk Maplecroft aponta que o risco médio global de agitação social atingiu, em 2024, o nível mais alto em quase uma década. Torbjorn Soltvedt, analista da consultoria, alerta: quando o choque atinge alimentos, combustível e energia simultaneamente, a reação é imediata e imprevisível.

No Marrocos, a “duas velocidades” descrita pelo engenheiro Anass Sayad — arranha-céus financeiros de um lado, protestos de jovens e êxodo migratório do outro — ilustra o perigo. O Banco Mundial estima que 1,2 bilhão de pessoas entrarão em idade ativa nos países em desenvolvimento na próxima década. Se o crescimento não gerar postos de trabalho formais em escala, a instabilidade deixa de ser risco de cauda para virar cenário base.

O que separa emergentes de desenvolvidos (além do PIB)

A inflação não é exclusividade do Sul Global. França, Itália e Espanha também viram manifestações por custo de vida. A diferença está na capacidade de amortecimento: países ricos dispõem de espaço fiscal para transferências diretas e subsídios temporários.

Nas economias em desenvolvimento, a vulnerabilidade é amplificada pelo peso da comida na cesta de consumo:

  • Países em desenvolvimento: alimentos representam 30% a 50% do IPC.
  • EUA: alimentos representam 13% a 14% do IPC.

Quando o preço do arroz ou do pão dispara, a erosão do poder de compra é total e imediata, sem rede de proteção proporcional.

O que observar daqui para frente

A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, admitiu que os custos mais altos de energia e alimentos, somados à queda na ajuda ao desenvolvimento, aumentam a pressão sobre o “trabalho árduo” de ajuste feito até aqui. O recado para quem aloca capital é claro: a sustentabilidade das reformas depende de uma variável que não está no balanço de pagamentos — a legitimidade política.

Os próximos trimestres dirão se os governos conseguem acelerar a entrega de serviços públicos (saúde, educação, moradia) para fechar a lacuna entre o discurso de “recuperação” e a realidade do caixa das famílias. Se a ponte não for construída, o risco não é apenas social; é a reversão da abertura de mercados e a volta da volatilidade cambial que assustava os investidores há dois anos. Acompanhe a execução orçamentária de 2025/26 nos principais emergentes: é ali que se decide se o ciclo de alta continua ou se o “abismo” volta ao radar.