A Prefeitura de São Paulo aplicou R$ 2,4 milhões em multas ao consórcio que opera o Smart Sampa por falhas no monitoramento por câmeras. O valor refere-se a 13 processos administrativos abertos entre julho de 2025 e agosto de 2026. A principal infração: equipamentos fora do ar muito além do permitido em contrato.
O programa é vitrine da gestão Ricardo Nunes (MDB) na segurança pública e já foi citado como modelo para nível nacional. Mas os números de indisponibilidade expõem uma fragilidade operacional que o discurso oficial não costuma destacar.
O mês em que um quarto das câmeras simplesmente não funcionou
Agosto de 2025 foi o pico do problema. Das 20 mil câmeras previstas, o contrato exigia 864 milhões de minutos de operação. O consórcio entregou 221,4 milhões de minutos a menos — 25,6% do tempo total indisponível. A multa correspondente: R$ 500,7 mil, a maior do período.
Para chegar ao valor, a prefeitura isolou R$ 2,5 milhões em serviços não prestados dentro da fatura mensal de R$ 10,58 milhões e aplicou a penalidade contratual de 20%. O acordo assinado em agosto de 2023 exige 99% de disponibilidade, tolerando no máximo sete horas e 12 minutos de queda por ponto ao mês.
Setembro e julho de 2025 também registraram multas acima de R$ 400 mil cada. Em 2026, os valores caíram: agosto teve R$ 14,5 mil por 3,1 milhões de minutos offline. Abril foi o único mês sem penalidade identificada.
Consórcio culpa criminosos; prefeitura diz que risco era previsível
Nas defesas, o Consórcio Smart City SP atribui as falhas a 3.131 ocorrências de furto e vandalismo entre janeiro de 2024 e novembro de 2025 — média de 141 por mês. Só em julho de 2025, teriam sido mais de 500 episódios. A empresa alega “cenário extraordinário e imprevisível” e pediu revisão financeira do contrato em março de 2026.
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) rejeitou o argumento. Parecer técnico assinado pela coordenadora Pâmella Cecarelli Candido afirma que o contrato transfere ao consórcio a responsabilidade por manutenção e reposição, inclusive em casos de furto, vandalismo e falhas de energia ou internet. A assessoria jurídica reforçou: esses riscos deveriam ter sido precificados na proposta comercial.
O que o vazamento de dados expôs além das imagens
Paralelo às multas, reportagem do UOL revelou que dados sigilosos do Smart Sampa ficaram acessíveis na internet por 11 meses. A exposição permitia visualizar imagens de mais de 58 mil câmeras — ruas, escolas, creches, hospitais. A prefeitura confirmou o vazamento, mas nega falha na plataforma: acusa um guarda civil metropolitano de divulgar as informações ilegalmente. O servidor foi afastado e responde a inquérito policial e administrativo.
Após o episódio, a gestão municipal diz ter implementado senhas exclusivas e autenticação em duas etapas. O contrato prevê auditorias periódicas e testes de segurança.
Resultados operacionais e o custo da vigilância
Apesar das falhas, a prefeitura divulga números de efetividade: até 22 de agosto, o sistema contribuiu para 6.850 prisões em flagrante e a captura de 3.630 foragidos. O custo mensal gira em torno de R$ 10 milhões. Somadas as câmeras particulares integradas, a rede chega a cerca de 58 mil pontos.
- Contrato: agosto de 2023 | Início da operação: julho de 2024
- Meta de disponibilidade: 99% (máx. 7h12min de queda/mês por câmera)
- Maior multa única: R$ 500,7 mil (agosto/2025)
- Total em penalidades: R$ 2,4 milhões (13 processos)
- Furtos/vandalismo reportados: 3.131 (jan/2024–nov/2025)
O que observar nos próximos meses
O pedido de revisão financeira do consórcio segue em análise, mas a prefeitura já sinalizou que a discussão de custos não suspende a fiscalização de obrigações contratuais. Dois movimentos merecem atenção: a evolução da taxa de indisponibilidade — que caiu drasticamente em 2026 — e o desfecho das investigações sobre o vazamento de dados, que pode gerar novas sanções ou exigências de compliance mais rígidas. Para quem acompanha contratos públicos de tecnologia, o caso virou referência de como riscos operacionais “previsíveis” não blindam o fornecedor de penalidades.
