Economia

Bitcoin a US$ 100 mil: A projeção ousada que ignora a inflação?

Gráfico de projeção do Bitcoin atingindo US$ 100 mil com ícones de inflação e ETFs institucionais
Bitwise projeta Bitcoin a US$ 100 mil até 2026, mas inflação e juros altos são riscos.

A Bitwise projeta que o Bitcoin pode superar US$ 100 mil até o fim de 2026, mas a inflação americana ameaça esse cenário. Será que a demanda institucional consegue vencer a pressão do Fed?

O otimismo da Bitwise e os números por trás da aposta

Ryan Rasmussen, chefe de pesquisa da Bitwise, mantém a meta de seis dígitos mesmo com o BTC recuando para a casa dos US$ 82 mil. A tese apoia-se em cinco pilares: fluxo contínuo nos ETFs à vista, acumulação corporativa, busca por escassez ante a inflação, expansão das dívidas soberanas e melhora regulatória nos EUA.

Os dados dão respaldo à narrativa. Desde meados de julho, produtos de cripto atraíram US$ 11,1 bilhões, segundo a CoinShares. Só no terceiro trimestre, os ETFs americanos de Bitcoin à vista capturaram quase US$ 6 bilhões — US$ 3,5 bilhões apenas em agosto.

Essa entrada reduz a oferta disponível no mercado. Contudo, James Butterfill alerta: o ritmo de compras arrefeceu nas últimas semanas. Para transformar fluxo em alta sustentável, o capital institucional precisa voltar com regularidade e volume.

O freio macroeconômico: inflação e juros altos

Do outro lado, a LO prevê um teto entre US$ 85 mil e US$ 95 mil. Adam Morgan McCarthy baseia a cautela nos números de setembro: o CPI subiu 0,6% no mês e 3,7% em 12 meses; o núcleo avançou 0,3% e 2,6%, respectivamente.

A gasolina disparou 9,1% no período e respondeu por mais da metade da alta mensal. O Fed já elevou a taxa básica em 25 pontos-base no mês passado, para a faixa de 3,75% a 4%. Um novo aperto tornaria ativos de risco menos atraentes e secaria liquidez global.

Para McCarthy, o Bitcoin só retoma US$ 100 mil se o petróleo cair, a inflação ceder e o mercado precificar pausa — não alta — na reunião de dezembro. É um cenário que depende de alinhamento de variáveis macroeconômicas hoje adversas.

O gatilho técnico dos US$ 90 mil

Luca Invernizzi, da Laser Digital (subsidiária da Nomura), vê o recente pullback como uma limpeza necessária de posições alavancadas frágeis. O resultado: um mercado potencialmente mais estável se compradores reaparecerem com convicção.

O nível de US$ 90 mil virou zona decisiva. Uma superação duradoura forçaria vendidos a recomprar para cobrir posições, criando efeito cascata rumo à meta de seis dígitos. Sem novos fluxos nos ETFs e com inflação persistente, porém, o potencial fica contido.

Principais números em um olhar

  • Meta Bitwise: > US$ 100 mil até 31/12/2026
  • Intervalo LO: US$ 85 mil – US$ 95 mil
  • Entradas ETFs (Q3): ~US$ 6 bilhões
  • Total desde jul/26: US$ 11,1 bilhões (CoinShares)
  • CPI setembro: +0,6% mensal / +3,7% anual
  • Núcleo CPI: +0,3% mensal / +2,6% anual
  • Gasolina setembro: +9,1% (metade da alta mensal)
  • Taxa Fed: 3,75% – 4,00%
  • Nível técnico chave: US$ 90 mil

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis ditam o rumo: decisões do Fed sobre juros, trajetória do petróleo e retorno dos fluxos institucionais nos ETFs. Antes de sonhar com US$ 100 mil, o Bitcoin precisa reconquistar e segurar US$ 90 mil sob pressão de taxas reais elevadas. Quem acompanha o mercado deve monitorar a agenda de inflação americana (CPI e PPI) e os relatórios semanais de fluxo de ETFs — são eles que validarão ou enterrarão a projeção mais otimista para o fechamento do ano.