O mapa de calor do Strava acende a Orla do Guaíba, a Redenção e os eixos centrais de Porto Alegre, mas especialistas alertam: o brilho no aplicativo não é atestado de segurança nem de boa infraestrutura. A ferramenta, que viralizou como “mapa de criminalidade invertido”, expõe, na verdade, o recorte de uma bolha privilegiada.
Com mais de 180 milhões de usuários globais e o Brasil como segundo maior mercado — onde clubes de corrida cresceram 800% em um ano —, o aplicativo desenha a cidade de quem tem tempo, tecnologia e condição física para registrar o lazer. Quem sai antes do amanhecer para trabalhar, idosos, crianças e moradores de áreas sem calçada simplesmente não aparecem.
O que Porto Alegre acende no radar
No mapa interativo, os traços mais escuros indicam concentração de atividades. Os destaques são nítidos:
- Orla do Guaíba: linha contínua ligando Parque Marinha do Brasil, Menino Deus, Cidade Baixa, Redenção e Moinhos de Vento.
- Eixos viários: Avenidas Ipiranga, Edvaldo Pereira Paiva e saídas para a Zona Sul.
- Periferias: Restinga, Rubem Berta e Lomba do Pinheiro aparecem, mas com linhas finas — sinal de poucos registros.
A coincidência com o mapa de linhas de ônibus é imediata: onde há transporte público, há rastro de corrida. Nos vazios periféricos, os dois mapas se espelham.
Infraestrutura sim, segurança não: a leitura dos especialistas
Para o urbanista Júlio Celso Borello Vargas (UFRGS), o Strava entrega três respostas distintas: infraestrutura (sim), renda (mais ou menos), segurança (não).
— Na Redenção há notícias recorrentes de assédio e ataques, mesmo com gente, iluminação e posto da Guarda Municipal. Movimento inibe, mas não protege — resume.
A renda aparece distorcida porque o mapa registra o percurso, não o endereço de quem corre. Moradores do Bela Vista descem de bicicleta para a Orla, inflando os números da Zona Sul sem morar lá.
O viés invisível: quem aparece e quem some
Estudo de campo em Oslo (Noruega) escancarou a distorção da amostra:
- Homens aparecem em proporção maior que na população real de praticantes.
- Faixa dos 35 a 54 anos está sobrerrepresentada.
- Quem registra no app tem renda e escolaridade mais altas que a média dos atletas de rua.
— O mapa não é o retrato da cidade inteira, é o mapa das pessoas que usam o aplicativo. É uma bolha — define Izabele Colusso (Unisinos). Crianças e idosos, públicos decisivos para avaliar a qualidade de uma calçada, ficam fora do radar.
Ciclovias que não viram rotas funcionais
O erro mais comum é ler o vazio no mapa como vazio na cidade. A Restinga tem ciclovia estrutural no plano oficial, mas linhas finas no Strava. Pode ser subutilização, pode ser falta de registro, pode ser desconexão com moradia e trabalho.
— Quem mais precisa muitas vezes não tem uma ciclovia chegando perto de casa. Para quem está a cinco ou seis quilômetros do emprego, a bicicleta é veículo viável — aponta Cibele Vieira Figueira (PUCRS).
Na Avenida Ipiranga, destaque no mapa, a ciclovia está danificada há mais de dois anos. Calçadas estreitas, velocidade de 60 km/h e comércio intenso tornam o trecho perigoso, apesar da popularidade no app. O aplicativo mostra passagem, não conforto.
Relevo, bikes elétricas e a manutenção parada
A topografia explica parte da concentração: áreas planas atraem mais registros. Mas a frota compartilhada já tem um terço de bicicletas elétricas, o que pode mudar a dinâmica nas ladeiras.
O Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) previa 495 km até 2022. Hoje, a capital tem 95,33 km — menos de um quinto da meta. Desse total, 33,38 km saíram do papel entre 2021 e 2025.
— Se tem pista de carro com buraco, arrumam em dias. A ciclovia da Ipiranga espera há anos — critica Cibele. A prefeitura prevê a reestruturação na operação urbana Nova Ipiranga, com parque linear e novos passeios.
O 4º Distrito e o perigo da valorização seletiva
Plano, com potencial para pedestres e ciclistas, o 4º Distrito aparece apagado no Strava. O planejamento prevê calçadas qualificadas, arborização, praças e corredores verdes com ciclovia. Mas Cibele alerta: intervenções urbanas valorizam o solo e podem expulsar quem já mora ali.
A ferramenta serve para governar?
Prefeitura e pesquisadores concordam: o Strava sozinho não planeja cidade. A gestão municipal cruza dados da EPTC, pesquisas de origem-destino, sinistros de trânsito e uso do solo.
— Não dá para pegar informação aberta e montar planejamento em cima. Tem que ter análise técnica e dado concreto, porque na rua a realidade é diferente — afirma Rovana Reali Bortolini (SMAM).
Em São Paulo, dados do app são combinados com contagens manuais nas ruas para corrigir viés. O mapa ajuda a perguntar: o que torna a Orla atrativa e o que falta nos vazios? Mas não responde sozinho onde as pessoas conseguem morar.
O que observar daqui para frente
A expansão da malha cicloviária depende menos de novos quilômetros e mais da conexão entre trechos existentes e da manutenção do que já está quebrado. A popularização de bikes elétricas pode democratizar o acesso a áreas íngremes, alterando o mapa de calor nos próximos anos. Para o leitor que decide onde investir, morar ou abrir negócio, a lição é clara: o brilho no Strava indica lazer de uma parcela específica; a cidade real se mede pela calçada que serve a todos, inclusive quem não carrega smartphone no bolso.
