O debate da Band deixou uma certeza incômoda: quem vai governar o Brasil a partir de 2027 ainda não disse como vai pagar a conta. O eleitor saiu do confronto de domingo (18) sem respostas para a única variável que move juros, câmbio e emprego: o equilíbrio fiscal.
O que se viu foi uma troca de acusações no primeiro bloco e generalidades no segundo. Flávio Bolsonaro (PL) acenou com um “Ministério da Prosperidade” sem detalhar estrutura ou metas. Lula (PT) recorreu ao retrospecto de superávits passados e ao Desenrola, mas calou sobre o rumo da dívida nos próximos quatro anos. O vazio de propostas concretas não é um detalhe — é o risco principal.
O silêncio que assusta o mercado
Enquanto os candidatos evitavam o tema, os números seguem sua trajetória. A projeção para o PIB de 2027 beira 1%, freada pelo juro real elevado. A dívida pública bruta caminha para ultrapassar 80% do PIB, pressionada por um déficit primário que, mesmo estacionado perto de 0,4% do PIB em 2026, exige rolagem cara e contínua.
Não há espaço para “geleia geral”. Sem superávits sustentáveis, qualquer promessa — na saúde, educação ou infraestrutura — vira miragem. O ajuste fiscal não é opção ideológica; é condição de viabilidade.
Dois históricos, uma mesma incógnita
O lado petista carrega o trunfo de superávits recordes nos dois primeiros mandatos. Porém, o terceiro governo convive com déficit primário e a mudança da meta fiscal em 2024 turvou a credibilidade. Medidas eleitorais em tramitação no Congresso pressionam o Orçamento de 2025 antes mesmo de ele ser votado.
Do outro lado, a referência inicial era o choque à la Milei: cortes de centenas de bilhões. Mas faltaram prazo, meios e a conta política. O governo Bolsonaro-Guedes deixou superávit de 0,5% em 2022, obtido com postergação de precatórios e dívidas estaduais — uma engenharia que não se repete sem custo futuro.
O que precisa estar no papel no dia seguinte à posse
Ganhe quem ganhar, a realidade impõe a mesma agenda. Especialistas convergem para três pilares inegociáveis:
- Trajetória de gastos críveis: regra que force superávits primários crescentes, não metas móveis.
- Qualidade da receita: redução de gastos tributários (isenções) em vez de aumento de alíquotas.
- Gestão da dívida: alongamento de perfil e redução da indexação à Selic para baixar o custo de carregamento.
O erro fatal seria descartar o arcabouço atual e começar do zero. A transição exige continuidade técnica, não ruptura política.
O que observar daqui para frente
Os próximos 60 dias ditam o cenário de 2027. Acompanhe a tramitação do Orçamento no Congresso: cada emenda aprovada sem contrapartida eleva a conta do ajuste futuro. Monitore a comunicação do Banco Central — a ata do Copom e o Relatório de Inflação sinalizarão se a autoridade monetária precifica um ajuste fiscal crível ou apenas mais incerteza. Por fim, observe os nomes cotados para a equipe econômica de transição; eles revelarão se o discurso vazio do debate dará lugar a um plano executável ou a nova improvisação.
