Justiça

O advogado que apostou R$ 5 bi em um ano: o que a Fazenda descobriu sobre a Blaze

Ilustração de lavagem de dinheiro em apostas online com advogado e bilhões em reais
Advogado Willer Tomaz movimentou R$ 5 bi em apostas na Blaze em 2023, levantando suspeitas de lavagem de dinheiro.

Uma nota técnica do Ministério da Fazenda revela que um único apostador físico movimentou mais de R$ 5 bilhões em bets no ano passado. O volume é tão atípico que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) aponta “indícios de culpa ou dolo” da operadora por não ter analisado nenhuma das operações.

O nome por trás dos números é Willer Tomaz, advogado e amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A Polícia Federal suspeita que a atividade masque lavagem de dinheiro e investiga se ele é sócio oculto da Blaze, plataforma onde concentrou as apostas. O inquérito corre no STF sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Depósitos de R$ 7 milhões em um dia, saques em 18 minutos

Os dados da SPA mostram padrões que fogem completamente ao perfil de um jogador recreativo. Em 30 de outubro de 2025, Tomaz depositou R$ 7 milhões fracionados em 14 transferências de R$ 500 mil. No dia seguinte, sacou R$ 6 milhões em apenas 18 minutos.

Em 11 de novembro, ele fez 12 apostas em cinco minutos, somando mais de R$ 5 milhões. Ao longo do ano, foram 629 apostas de valor igual ou superior a R$ 500 mil. Para a Fazenda, é “praticamente impossível” que a empresa não tenha percebido movimentações na casa dos bilhões.

Cliente “médio” para a Blaze, “máximo” para o regulador

Apesar do volume, a Blaze classificou Tomaz como cliente de risco “médio” durante todo 2025. A nota técnica destaca contradições gritantes:

  • A própria empresa trata depósitos acima de R$ 50 mil como fator de risco; os de Tomaz superaram esse limite em mais de cinco mil vezes.
  • Ele já havia sido preso sob suspeita de corrupção — critério que, pelas regras da Blaze, o colocaria no nível máximo de risco.
  • Em 2025, a operadora comunicou ao Coaf apenas sete operações suspeitas, todas abaixo de R$ 1.000.

A SPA conclui que a Blaze “simplesmente faltou com a verdade para o regulador” ao afirmar, em março de 2025, que monitorava operações de forma automatizada. Em dezembro, a empresa admitiu não ter essa ferramenta.

Cassino ao vivo, mesa exclusiva e a defesa do vício

Segundo a defesa, os recursos têm origem lícita, são compatíveis com os rendimentos do advogado e constam na declaração à Receita Federal. O volume de R$ 5 bilhões, argumentam, decorre de “reapostas sucessivas de um mesmo montante” — o mesmo dinheiro circulando várias vezes.

Tomaz afirma ser viciado em jogo. Em ação judicial contra a Blaze, ele se descreveu como “o apostador de maior perda da plataforma” e pediu o bloqueio da conta, o que não teria sido atendido. A Justiça de São Paulo negou pedido para recuperar R$ 133,2 milhões perdidos, citando comportamento contraditório: ele solicitou mesas exclusivas com limites de até R$ 500 mil por mão.

Em depoimento, o advogado relatou que migrou do bacará ao vivo para uma mesa exclusiva de blackjack, a “Blaze VIP Blackjack”, criada para ele. Rodadas duravam cerca de 30 segundos.

Outra bet, outra investigação: a conexão com a 7K

Além da Blaze, Tomaz depositou R$ 1,3 milhão na 7K, marca do grupo Ana Gaming. Apostou R$ 4,8 milhões e sacou R$ 426 mil. A Ana Gaming teve R$ 631 milhões bloqueados na Operação Narco Bet, deflagrada em outubro de 2025, sob suspeita de lavar dinheiro do PCC por meio de criptomoedas e bets.

O TRF-3 manteve o bloqueio dos bens do grupo, controlado pelo empresário Nickolas Ribeiro, ao ver “fortes indícios de lavagem de dinheiro”. A defesa de Tomaz nega vínculo societário ou pessoal com a 7K e afirma que ele não é alvo da Narco Bet.

O que observar daqui para frente

A SPA recomendou a abertura de processo administrativo contra a Blaze, com aplicação de multa e avaliação de suspensão temporária das atividades. A nota técnica sugere que a operação da empresa pode ter sido, “ao longo de um ano inteiro”, um “campo aberto para o cometimento de crimes financeiros”.

Enquanto o inquérito no STF avança, três pontos merecem atenção de investidores e operadores do setor: a definição de parâmetros claros para monitoramento de high rollers, a exigência efetiva de ferramentas automatizadas de compliance e a responsabilidade solidária de plataformas que ignoram sinais evidentes de risco. O caso deve balizar a fiscalização das bets autorizadas a operar no Brasil a partir de 2025.