Duas cafeterias submersas pela água forçaram dois sócios a abandonar o modelo de serviços e apostar tudo em um produto industrializado. O resultado? Uma marca de café gelado em lata que nasceu da emergência e hoje mira faturamento de R$ 900 mil em 2026.
Mas o caminho entre o prejuízo e a prateleira guarda lições que valem para qualquer negócio em transição.
Da enchente à linha de produção em tempo recorde
Quando as águas cobriram Porto Alegre em maio de 2024, César Mincato e Thiago Fiamengui viram seus dois pontos físicos pararem por tempo indeterminado. Em vez de esperar a reconstrução, eles ativaram um projeto que dormia na gaveta: café cold brew envasado.
A decisão transformou a Sanpê Coffee & Co. de prestadora de serviço em indústria de bebidas funcionais. O investimento inicial foi de R$ 500 mil — capital próprio e linhas de crédito —, alocado em equipamentos de extração a frio, envasadora e estoque de matéria-prima.
O primeiro lote saiu em 2025. Hoje, a fábrica roda ciclos de 3 mil a 4 mil litros, o equivalente a até 15 mil latas por batida.
Por que café frio? A ciência por trás da aposta
Não foi palpite. A dupla estudou mercados onde o café gelado já é mainstream: Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Emirados Árabes. Nesses países, a categoria cresce a dois dígitos ao ano há mais de uma década.
O diferencial técnico está na extração:
- 14 horas de infusão a frio — sem calor, sem oxidação;
- Grãos 100% arábica da Serra da Mantiqueira (Cachoeira de Minas, MG), selecionados com o produtor para perfil sensorial específico;
- Resultado: 60% menos acidez, amargor quase zero e teor de cafeína superior ao café coado tradicional.
Dois sabores compõem o portfólio inicial: tradicional e limão-siciliano. O segundo nasceu de testes cegos com consumidores que pediam “algo leve para o fim de tarde”.
O desafio real não é produzir — é criar categoria
O Brasil bebe café quente. Ponto. Inserir uma lata gelada na rotina exige mais que distribuição; exige educação de mercado. “O difícil não é fazer o líquido. É fazer o consumidor querer abrir a lata”, resume Mincato.
Atualmente, a marca está em cerca de 100 PDVs no Sul do país — empórios, cafeterias de terceiro onda, redes de conveniência premium e clubes de assinatura. O faturamento do primeiro ciclo fechou em R$ 220 mil. A projeção para 2026 beira R$ 900 mil, mas depende de dois vetores: expansão geográfica e repetição de compra.
Números que o investidor deve observar
| Indicador | Status atual | Meta 2026 |
|---|---|---|
| Investimento total | R$ 500 mil | — |
| Capacidade por lote | até 15 mil latas | dobrar com 2º turno |
| Pontos de venda | ~100 (Região Sul) | 500+ (Sul + SP) |
| Faturamento | R$ 220 mil | R$ 900 mil |
| SKUs ativos | 2 | 4 a 5 |
A estrutura enxuta — sem frota própria, com produção terceirizada em co-packer homologado — mantém o burn rate controlado. O gargalo hoje é capital de giro para financiar o ciclo caixa-estoque-venda em prazo de 45 a 60 dias.
O que observar daqui para frente
Três sinais vão ditar se a Sanpê vira case de escala ou fica no nicho premium: entrada em redes nacionais de varejo (o que exige slotting fee e logística reversa), taxa de recompra acima de 30% no canal direto e lançamento de versão zero açúcar com ingredientes funcionais — adaptógenos e nootrópicos — já em validação sensorial.
Para quem acompanha o setor de beverages, a tese é clara: café pronto para beber (RTD) é a próxima fronteira de valor no Brasil. A Sanpê chegou cedo. A pergunta é se consegue capitalizar o pioneirismo antes que gigantes entrem na prateleira.
