Economia

Pokémon: A carta de R$ 86 milhões e o segredo do mercado que explode no Brasil

Carta rara de Pikachu Illustrator em estojo protetor, leiloada por 86 milhões de reais
A carta Pikachu Illustrator quebrou recordes ao ser vendida por R$ 86 milhões em leilão internacional.

Uma única carta de Pikachu foi leiloada por US$ 16,5 milhões — cerca de R$ 86 milhões na cotação de fevereiro — e expôs a dimensão de um mercado que deixou de ser brincadeira de criança. O valor astronômico, porém, esconde uma dinâmica complexa onde nostalgia, escassez e especulação se misturam. Entender esse jogo é essencial antes de colocar dinheiro na mesa.

O tamanho real desse mercado

Os números da The Pokémon Company impressionam: a produção saltou de 75 bilhões de cartas (março de 2025) para 85 bilhões um ano depois. Antes de 2019, a média anual mal passava de 2 bilhões. No Brasil, a Copag responde pela distribuição oficial, mas o apetite global dita os preços.

Dados da Circana mostram que a categoria de cartas colecionáveis não esportivas cresceu 350% em faturamento nos EUA entre 2020 e 2025. O Google Trends confirma a febre: as buscas por “Pokémon” no país foram 60% maiores no último quinquênio comparado ao anterior, atingindo em 2024 o pico desde o lançamento de Pokémon Go.

Do playground ao portfólio: quem compra hoje

O perfil do comprador mudou. Adultos que cresceram com a franquia agora disputam produtos lacrados com investidores atraídos pela liquidez aparente. Influenciadores amplificam o alcance: uma live de Neymar abrindo pacotes chegou a 175 mil espectadores simultâneos; Thiago Nigro expõe compras de caixas seladas como ativos.

A mecânica dos “boosters” mantém a roda girando. A cada dois ou três meses, expansões com centenas de cartas chegam em pacotes aleatórios. A maioria vale centavos — na Liga Pokémon, exemplares comuns saem a partir de R$ 0,25 —, mas a caça às raridades move milhões.

O caso da caixa de R$ 2 mil que vale R$ 10 mil

Éric Fenalte, 35, comprou em 2016 uma caixa lacrada da primeira coleção brasileira (Base Set 2000) por US$ 600 (≈ R$ 2.100). Hoje, o mesmo produto é anunciado entre R$ 9 mil e R$ 10 mil. “Eu quero preservar. São itens que, mesmo tendo o dinheiro, eu não vou achar”, diz ele, que também avalia tiragem e conteúdo das expansões atuais para projetar valorização futura.

Valdebrando Giovanini, cofundador da Liga Pokémon, destaca dois gatilhos frequentes de alta:

  • Relevância competitiva: cartas que entram em baralhos vencedores de torneios disparam de centavos para valores expressivos.
  • Popularidade do personagem: ícones como Pikachu e Charizard têm demanda perene, independentemente da utilidade no jogo.

O que faz o preço explodir (e o que derruba)

A certificação profissional virou pré-requisito para transações de alto valor. A brasileira Manafix cobra a partir de R$ 75 para autenticar e graduar o estado de conservação — superfície, cantos, bordas e centralização da impressão. Um defeito microscópico pode derrubar a nota e, com ela, o preço final.

O recorde do Pikachu Illustrator ilustra a combinação perfeita: tiragem de apenas 39 unidades em 1998, condição impecável (única nota máxima PSA 10 conhecida) e protagonista absoluto da franquia. Logan Paul pagou US$ 5 milhões em 2021; a revenda triplicou o valor em três anos.

O aviso dos veteranos: não é investimento, é aposta

A educadora financeira Cássia D’Aquino traça a linha divisória: comprar esperando revender mais caro depende do interesse futuro de terceiros, não de fluxo de caixa ou lastro. “É aposta em sentimento de mercado”, resume. A liquidez é o calcanhar de Aquiles — uma carta anunciada por R$ 10 mil pode levar meses para vender ou exigir desconto profundo para sair rápido.

Diogo Pires, que vendeu parte da coleção por US$ 20 mil em 2018 e usou o recurso na entrada de um imóvel, reforça o viés de sobrevivência: “Na época do lançamento, ninguém sabia que valorizariam décadas depois. Dei a sorte de colecionar o que subiu. Guardar aleatoriamente não garante nada.”

O que observar daqui para frente

Três variáveis devem ditar os próximos ciclos: a política de reimpressões da The Pokémon Company (que pode diluir escassez), a adesão de novos colecionadores via jogos digitais como Pokémon TCG Live e a profissionalização das casas de leilão e graduação no Brasil. Para o empresário ou investidor, a regra de ouro permanece: exposição limitada, foco em graus de certificação reconhecidos internacionalmente e horizonte de longo prazo — tratando o ativo como alternativa de alta volatilidade, nunca como reserva de valor garantida.