Os Estados Unidos acabam de cruzar uma linha histórica: o governo federal gastou US$ 1,05 trilhão apenas com juros da dívida no ano fiscal encerrado em setembro. O valor supera em 8% o registrado em 2025 e equivale a 3,2% do PIB — o maior patamar desde 1991.
O número assusta, mas a verdadeira pergunta é outra: até quando a maior economia do mundo consegue sustentar essa conta sem quebrar?
O tamanho do buraco que ninguém comenta
A dívida pública bruta já ultrapassa US$ 32 trilhões — quase US$ 10 trilhões a mais que há cinco anos. Não é só o volume que assusta; é o custo de carregá-la.
Em setembro, a taxa média paga nos títulos do Tesouro era de 3,52%, mais que o dobro dos 1,47% de 2019. Hoje, o índice da Bloomberg já ronda 5%. Cada ponto percentual a mais na curva de juros adiciona centenas de bilhões à fatura anual.
- US$ 310 bilhões: custo extra estimado para 2027 se os rendimentos subirem 1 ponto (TD Securities)
- Top 3 despesas: juros já superam Defesa e Medicaid, ficando atrás só de Previdência e Medicare
- Dobrou desde 2022: o salto nos custos com juros não tem precedentes recentes
Por que ainda não houve uma crise?
Três fatores mantêm o mercado calmo — por enquanto:
- Crescimento nominal do PIB (6,3%) supera o custo da dívida, garantindo receita fiscal crescente
- Leilões de títulos seguem com demanda sólida, sem sinais de rejeição por investidores
- O crédito privado não travou: empresas e famílias ainda acessam financiamento normalmente
Segundo Gennadiy Goldberg, da TD Securities, “um apocalipse fiscal ainda não está sobre nós”. Phillip Swagel, do Escritório de Orçamento do Congresso, resume: “De alguma forma, estamos conseguindo administrar a situação, mesmo com a alta dos juros.”
O efeito turbo que ninguém quer testar
O perigo não é o cenário atual — é a dinâmica que ele cria. Swagel alerta para o “efeito turbo”: juros altos → déficit maior → mais dívida → pressão extra nos juros → economia mais fraca.
A projeção oficial aponta dívida/PIB acima de 106% em 2030, recorde histórico. E isso assumindo que nada dê errado no caminho.
Louise Sheiner, da Brookings, coloca o dedo na ferida: “O que não se sabe é em que momento alguns credores decidirão não nos emprestar — e, se isso acontecer, poderá desencadear uma crise fiscal.”
O que mudou desde 1991 — e por que desta vez é diferente
Na última vez que os juros beiraram este patamar, o país reagiu: Bush pai aumentou impostos em 1990, Clinton elevou ainda mais em 1993, os gastos com defesa caíram com o fim da Guerra Fria e a revolução da internet turbinou a receita.
Hoje, a aposta do governo é na inteligência artificial como novo motor de crescimento. Especialistas em orçamento são céticos: gastos com defesa e benefícios sociais seguem em alta, e o PIB dificilmente crescerá o bastante para cobrir a diferença.
O que observar daqui pra frente
Três gatilhos podem mudar o jogo nos próximos trimestres:
- Mais uma alta do Fed: taxa básica entre 3,75% e 4% deve subir ainda, encarecendo dívida de curto prazo
- Leilões fracos: qualquer sinal de demanda enfraquecida acende o alerta vermelho
- Pressão política por cortes: se juros passarem de 4% do PIB, o debate fiscal vira inevitável
Karen Dynan, de Harvard, resume o dilema: “Não acho que uma crise fiscal seja iminente; ainda temos uma economia bastante forte. [Mas] com a dívida tão elevada, os pagamentos líquidos de juros realmente importam — eles levarão a um efeito bola de neve no endividamento.”
A conta chegou. A dúvida é quem vai pagá-la — e quando.
