A arrecadação federal com imposto sobre o lucro das grandes empresas americanas caiu mais de 25% em relação a 2024, fechando o ano fiscal em US$ 381 bilhões. O tombo ocorreu justamente quando os balanços corporativos batiam recordes históricos. Algo não fecha — e a explicação mexe com o bolso de quem investe ou empreende.
O rombo de cerca de US$ 70 bilhões não é acidente de percurso. Ele tem nome, data e assinatura: a lei de cortes tributários aprovada pelo Congresso republicano e sancionada por Donald Trump no ano passado. A regra permite que companhias deduzam integralmente, no próprio ano, o custo de equipamentos e pesquisa. Antes, esse abatimento era diluído por anos.
Por que a conta não fecha para o Tesouro
A mudança coincidiu com o início da corrida armamentista da inteligência artificial. Microsoft, Google e Meta passaram a despejar centenas de bilhões em data centers, chips e infraestrutura elétrica. Cada dólar investido vira dedução imediata. Resultado: lucros explodem, mas a base tributável encolhe.
“É uma divergência de magnitude incomum, mas não surpreendente”, resume Peter Berezin, economista-chefe da BCA Research. “Os gastos com IA vão aumentar nos próximos anos. Essas empresas poderão deduzir parcelas ainda maiores. Se não tivessem lucros enormes, seria uma coisa. Mas têm.”
O que isso significa para quem decide capital
O efeito cascata atinge três frentes simultâneas:
- Déficit público: chegou a US$ 2 trilhões no último ano fiscal, turbinado por juros da dívida e gastos militares.
- Dívida federal: supera US$ 32 trilhões — cerca de 100% do PIB, patamar só visto pós-Segunda Guerra.
- Custo de capital: a avalanche de investimentos em IA pressiona juros longos, encarecendo financiamento para qualquer projeto.
Gabriel Chodorow-Reich, professor de Harvard, alerta: “A macroeconomia já comporta praticamente todo o investimento que consegue. Aumentar o incentivo marginal pode, no fim, apenas elevar o preço do investimento, não a quantidade total.”
Incentivo certo na hora errada?
Estudos acadêmicos confirmam: o benefício fiscal (chamado bonus depreciation) já estimulou investimentos no passado. Mas o contexto mudou. Matt Gardner, do Institute on Taxation and Economic Policy, é direto: “Parece pouco controverso dizer que estamos recompensando empresas por algo que já fariam de qualquer maneira.”
David Kelly, estrategista-chefe global da JPMorgan Asset Management, usa uma analogia cáustica: “Se você tomou cinco xícaras de café, a sexta não faz bem. Você está estimulando o que não precisa de estímulo.”
O risco estrutural que ninguém discute
Além do buraco imediato, há uma armadilha de longo prazo. Lucros gerados por IA — capital intensivo, pouca mão de obra — são tributados a alíquotas efetivas menores que salários. Se a tecnologia substituir trabalhadores em escala, a base do imposto de renda pessoal (que cresceu no último ano) encolhe. Duas pernas da arrecadação enfraquecem ao mesmo tempo.
O governo Trump também enfraqueceu regras anti-elisão fiscal corporativa, abrindo mais espaço para planejamento agressivo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o cenário nos próximos 18 meses: (1) o ritmo real de capex das big techs — se desacelerar, a arrecadação respira; (2) a trajetória dos juros longos — se subirem mais, investimentos não-IA travam; (3) a negociação do teto da dívida e eventuais pacotes de ajuste fiscal no Congresso. Para gestores e conselhos, a lição prática: modele cenários com alíquotas efetivas em queda, não alta. O regime tributário atual premia ativos pesados e lucros de capital. Quem depende de receita recorrente e folha de pagamento carrega a conta.
