O mercado de ofertas públicas iniciais em Nova York praticamente parou nas últimas semanas, e não é por falta de candidatos. Gigantes como Anthropic e OpenAI empurraram suas estreias para 2025, enquanto uma fila de empresas menores cancela ou adia planos indefinidamente.
O sinal de alerta acendeu quando a média de desempenho das techs que estrearam este ano mostra queda de 23% desde o primeiro pregão, segundo a BCA Research. Quem comprou no lançamento viu o dinheiro evaporar.
O efeito dominó nos grandes nomes
A Anthropic, cotada para valer mais de US$ 2 trilhões, só deve ir a mercado após as eleições de meio de mandato nos EUA, em meados de novembro. A OpenAI, sua rival direta, jogou o IPO para o ano que vem. Duas das apostas mais quentes do setor de IA decidiram, juntas, que o momento não compensa.
Não é só tecnologia. O grupo de postos EG Group, dono da marca Cumberland Farms, mirava US$ 1 bilhão a uma avaliação de US$ 9 bilhões. Agora, a meta mudou para 2027. A SB Energy, de data centers e lastreada pelo SoftBank, queria US$ 50 bilhões sem ter uma única instalação operando. Os investidores disseram não.
Por que o apetite secou?
Três forças atuam ao mesmo tempo:
- Ceticismo com valuations de IA: bancários ouvidos pelo Financial Times classificam as avaliações como “alheias à realidade”.
- Capital especulativo: a demanda inicial é inflada por fundos que buscam o “pop” do primeiro dia e saem na sequência, deixando o papel sangrar.
- Assimetria de ganhos: investidores originais da SpaceX, por exemplo, embolsam valorização no papel; quem entrou no IPO viu o ativo devolver a alta nas semanas seguintes.
Um gestor de grande asset manager resume: “Ninguém se importa com nada que não seja a Anthropic. O resto não gera entusiasmo”.
O contágio setorial
O setor hoteleiro sente o reflexo. A Ennismore, de hotéis-boutique e controlada pelo grupo francês Accor, cogitava listar em Nova York ainda este ano — a janela pode fechar. Na Europa, a Hotel Investment Partners (HIP), do portfólio da Blackstone, planejava IPO na Espanha acima de 6 bilhões de euros. Os planos estão em stand-by.
Mesmo com o S&P 500 próximo da máxima histórica e o VIX (índice de volatilidade) contido — condições que, em tese, favorecem IPOs —, a liquidez real para novas ações sumiu.
O cenário global não ajuda
Na Ásia, a AS Watson (dona da Superdrug, Savers e Rossmann) adiou para 2025 sua listagem dupla de US$ 30 bilhões entre Londres e Hong Kong. A aprovação do regulador chinês de valores saiu, mas a autorização de cibersegurança trava a operação.
No Reino Unido, Waterstones e Loveholidays também recuaram. Um banqueiro sênior sintetiza: “Todos os nomes que tínhamos para 2026 estão sendo empurrados para 2027”. O único grande IPO previsto em Londres agora é o da Dangote Cement, da Nigéria.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar a reabertura da janela: o desfecho das eleições americanas e seu impacto no apetite por risco, a trajetória dos lucros das big techs já listadas (que serve de referência para valuation de privadas) e a capacidade das empresas de IA provarem geração de caixa — não apenas narrativas de mercado endereçável.
Para quem avalia alocar em ofertas futuras, a lição dos últimos meses é clara: primeiro dia de alta não garante retorno sustentável. O filtro agora é fundamentos, não hype.
