Mais da metade das empresas brasileiras colocou a carga tributária no topo das exigências para o próximo governo, revela levantamento exclusivo do FGV Ibre. O dado surpreende porque a reforma tributária já está em curso — mas a transição até 2033 ainda assusta quem precisa fechar as contas hoje.
A sondagem ouviu cerca de 4.000 negócios em agosto, antes do primeiro turno. Cada respondente podia indicar até três prioridades. O resultado expõe um abismo entre a agenda política e a realidade do caixa.
O número que não mente
54,2% dos entrevistados sinalizaram a tributação como prioridade máxima. Nenhum outro tema chegou perto. Em segundo lugar, contas públicas apareceram com 27,1%, seguidas por redução da burocracia (24,8%) e infraestrutura e logística (24,7%).
Segurança pública (18,2%), acesso ao crédito (15,6%) e qualificação de mão de obra (15%) completam o grupo de preocupações relevantes. Proteção à concorrência e abertura comercial ficaram abaixo de 13%.
Por que a reforma não resolveu a ansiedade
O novo modelo tributário prevê unificação de impostos e fim da cumulatividade. A vigência integral, porém, só chega em 2033. Até lá, convivem dois sistemas — e o custo de adaptação recai sobre as empresas.
“Por mais que se fale da reforma, os empresários ainda não estão enxergando uma solução para esse problema”, afirma Rodolpho Tobler, coordenador das sondagens do FGV Ibre. A incerteza sobre alíquotas finais e regras de transição trava decisões de investimento.
O que cada setor mais sente na pele
- Indústria de transformação: tributação lidera, pressionada por cadeias longas e crédito de ICMS
- Serviços: burocracia e carga tributária empatam no topo das dores
- Comércio: guerra fiscal entre estados ainda dita preços e margens
- Construção: única a apontar qualificação de mão de obra no top 3 (26,8%)
Na construção, a tributação também aparece em primeiro (54%), seguida por infraestrutura e logística (27,7%). O setor mantém apetite por contratações, mas esbarra na escassez de trabalhadores dispostos a jornadas pesadas e horários rígidos.
Dois diagnósticos, nenhuma certeza
O programa de um dos finalistas propõe “revisão e redimensionamento” da reforma, alegando excesso de concessões a lobbies. O outro defende que o texto amplia transparência, acaba com a guerra fiscal e garante tratamento justo na implementação.
Enquanto o debate político gira, o empresariado convive com prazos de recolhimento, regimes especiais por estado e a necessidade de provisionar recursos para a transição. O caixa não espera 2033.
O que observar nos próximos meses
A definição das alíquotas de referência do IBS e da CBS será o primeiro teste real. Regras de crédito acumulado, regimes específicos por setor e o cronograma de extinção de incentivos estaduais determinam se a reforma alivia ou aprofunda o custo Brasil no curto prazo. Quem acompanha de perto a regulamentação infralegal sai na frente — o texto constitucional é apenas o começo.
