Economia

Lula quer limitar cartão de crédito a um por pessoa; veja o que muda

Presidente Lula segura cartão de crédito ao anunciar proposta de limite de um por CPF
Lula propõe limitar a um cartão de crédito por CPF para combater endividamento das famílias.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou que negocia com o Banco Central a proibição de mais de um cartão de crédito por CPF. A medida, revelada em entrevista ao Flow Podcast, mira conter o endividamento recorde das famílias brasileiras. Mas a proposta esbarra em detalhes operacionais que ainda não foram divulgados.

O gatilho da proposta: um caso de R$ 80 mil

Lula citou o exemplo de uma pessoa que teria recebido quatro cartões diferentes e acumulado R$ 80 mil em dívidas. Para o presidente, a facilidade de acesso a múltiplos limites estimula o consumo irresponsável. A ideia, nas palavras dele, é “moralizar a questão do crédito” no país.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, estaria ciente das discussões. Não há, porém, cronograma oficial nem minuta de resolução publicada até o momento.

Endividamento das famílias em números

O contexto pressiona: a inadimplência das pessoas físicas renovou recorde histórico em agosto, segundo dados do próprio Banco Central. O estoque de crédito rotativo e parcelado segue como um dos mais caros do mundo, com juros médios acima de 400% ao ano no rotativo.

Principais indicadores atuais:

  • Inadimplência (pessoas físicas): patamar recorde em agosto/2024
  • Juros do rotativo: média superior a 400% ao ano
  • Dívidas alvo do Desenrola 3.0: até R$ 150 bilhões

Como o Desenrola 3.0 se conecta à ideia

Na semana passada, o governo lançou a terceira fase do programa Desenrola. A União comprará dívidas bancárias com desconto mínimo de 90% e repassará o abatimento aos devedores, que poderão quitar à vista ou parcelar o saldo restante. A iniciativa tenta limpar o nome de milhões de brasileiros.

A restrição de cartões funcionaria como medida preventiva, enquanto o Desenrola atua no estoque já existente. Duas frentes complementares, na visão do Planalto.

O que os bancos e o BC devem avaliar

Instituições financeiras tendem a questionar a viabilidade técnica. Cartões adicionais, corporativos, de benefícios (alimentação, refeição) e co-branded precisariam de definições claras. O BC, por sua vez, costuma preferir regulações baseadas em conduta e transparência, não em limites quantitativos rígidos.

Mas o efeito mais relevante aparece no comportamento do consumidor.

Impacto direto para quem usa crédito no dia a dia

Se a regra avançar, o portador precisará escolher uma única instituição para concentrar seu limite. Isso pode fortalecer o relacionamento bancário e facilitar o controle de gastos. Por outro lado, reduz a concorrência por limites emergenciais e pode dificultar quem usa cartões diferentes para separar despesas pessoais e profissionais.

Especialistas ouvidos pelo mercado alertam: a medida não ataca a causa raiz — a falta de educação financeira e o custo do crédito rotativo.

O que observar daqui para frente

Fique atento a três movimentos: a publicação de consulta pública ou minuta pelo BC, a reação das associações de bancos (Febraban e Abecs) e eventuais ajustes no Desenrola 3.0 para cobrir dívidas de múltiplos cartões. A proposta ainda está no campo das intenções, mas sinaliza que o governo quer endurecer a régua do crédito ao consumidor nos próximos meses.