A maior gestora de ativos do mundo projeta expandir sua base brasileira em 30% no ano que vem, independentemente de quem ocupar o Planalto. A meta ambiciosa revela uma transformação silenciosa no comportamento do investidor local que poucos estão acompanhando de perto.
Bruno Barino, CEO da BlackRock no país, confirmou à Reuters que a operação já cresce entre 30% e 35% em 2026, após alta de 12% no ano passado e fluxo negativo em 2024. O detalhe decisivo: cerca de 90% dos recursos administrados localmente estão alocados no exterior.
O motor invisível por trás dos números
A aposta da gestora não depende de PIB nem de ciclo eleitoral. “Não é uma questão de crescimento econômico, é só fazer a conta”, resume Barino. A equação é simples: enquanto o brasileiro mantiver 90% do patrimônio offshore e continuar aumentando essa exposição, a BlackRock captura uma fatia proporcional — sem precisar conquistar novos clientes.
O fenômeno já aparece nos dados da B3. No primeiro semestre, o número de pessoas físicas com ETFs na carteira saltou de 639 mil para 862 mil. O valor em custódia disparou 62%, alcançando R$ 35,1 bilhões. O BOVA11, carro-chefe da iShares no Brasil desde 2008, segue como porta de entrada principal.
Por que os ETFs ainda têm muito espaço para crescer
A marca iShares gere US$ 5,5 trilhões globalmente. No Brasil, porém, a penetração de fundos de índice permanece baixa frente a mercados desenvolvidos. Barino aponta um padrão global que deve se repetir por aqui: a busca por produtos nas duas pontas — passivos de baixo custo de um lado, alternativos sofisticados do outro.
- ETFs de renda variável lideram a adesão inicial
- Fundos de infraestrutura e private credit ganham tração entre institucionais
- Produtos temáticos (IA, transição energética) atraem capital de longo prazo
Essa polarização explica por que a gestora enxerga o mercado brasileiro como “relativamente modesto” perto de sua presença global. “Em todos os grandes mercados investíveis a BlackRock é gigante, menos no Brasil”, admite o executivo.
Infraestrutura e IA: a aposta de US$ 15 trilhões
O maior desafio, na visão de Barino, não é captar recursos — é direcioná-los para projetos que transformem a economia. A gestora mira quatro vetores: portos, aeroportos, energia e data centers. Este último, impulsionado pela corrida global por inteligência artificial, pode posicionar o Brasil como hub latino-americano.
“O Brasil ainda pode ser um hub de IA para a América Latina. Eu não acho que essa oportunidade passou, mas ‘the clock is ticking'”, alerta. A vantagem energética (matriz limpa e abundante) e o tamanho do mercado interno são trunfos. Falta coordenação: marcos regulatórios estáveis, política de Estado e estratégia unificada para competir pelo “cheque global”.
O que o estrangeiro vê e o brasileiro ignora
Apesar de juros altos e incertezas fiscais, Barino nota uma assimetria curiosa: investidores externos enxergam o Brasil com mais otimismo do que os próprios nacionais. “A visão do estrangeiro em relação ao Brasil é muito melhor do que a nossa.”
O recado final independe do resultado das urnas — primeiro turno marcado para 4 de outubro, com Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico nas pesquisas de segundo turno. “Independentemente de quem ganhar, a profundidade das reformas definirá nossa capacidade de competir pelo investimento.”
O que observar nos próximos trimestres
Três sinais dirão se a projeção de 30% se sustenta: a continuidade do fluxo para ETFs (dados mensais da B3), o avanço de marcos regulatórios para infraestrutura e data centers, e a evolução da alocação offshore do investidor pessoa física — hoje o verdadeiro motor de crescimento da maior gestora do mundo em solo brasileiro.
