Economia

UE trava carne bovina do Brasil: liberação pode levar dois anos, alerta bloco

A União Europeia (UE) considera “difícil” reabrir o mercado para a carne bovina brasileira em menos de dois anos, fechando as portas para um período de transição pedido por exportadores. A trava atinge diretamente o fluxo de caixa de frigoríficos e pecuaristas que contavam com a retomada rápida após o acordo comercial com o Mercosul.

O aviso partiu de Jean-Pierre Bou, chefe-adjunto da delegação do bloco no Brasil. Ele admitiu que há esforços para acelerar o processo, mas as regras sanitárias europeias não dão margem para atalhos no caso do gado.

O gargalo do ciclo de vida do boi

A exigência central da UE é a comprovação de que não houve uso de antimicrobianos durante todo o ciclo de vida do animal. Para o gado de corte, esse ciclo dura, em média, 24 meses.

Isso explica a diferença de tratamento entre as proteínas. Frango e mel já passaram por auditorias rápidas e tiveram relatórios positivos, o que deve permitir a volta das exportações desses itens no curto prazo. A carne bovina, porém, exige rastreamento de longo prazo que não pode ser construído da noite para o dia.

Acordo Mercosul-UE: ganhos reais, mas setoriais

Enquanto a carne bovina segue bloqueada, outros setores já colhem os frutos do acordo comercial. Nas primeiras semanas de vigência, as exportações agrícolas para o bloco cresceram de forma expressiva.

  • Café: alta de 10,9% em volume (maio a agosto) na comparação anual, mesmo com redução tarifária gradual.
  • Uvas: expansão significativa nas remessas.
  • Tarifas: a eliminação total para café não é imediata; ocorre em etapas, o que sinaliza potencial de crescimento adicional nos próximos anos.

Bou reconhece a frustração do agronegócio brasileiro, mas destaca que o acordo abriu portas que compensam, em parte, o veto sanitário.

Imagem ambiental e a lei antidesmatamento (EUDR)

Para melhorar a percepção na Europa, o Brasil precisa manter a trajetória de queda no desmatamento e cumprir o Código Florestal, segundo o diplomata. O uso de áreas degradadas para expandir a produção é apontado como o caminho mais seguro para conciliar crescimento e agenda verde.

O teste de fogo chega em dezembro, com a entrada em vigor da EUDR. A lei exige rastreabilidade total para garantir que produtos não venham de áreas desmatadas. Bou avalia que o preparo brasileiro é desigual:

  • Café: rastreamento avançado, boa preparação.
  • Carne bovina: maior dificuldade, pois o animal passa por várias propriedades antes do abate.
  • Outros setores: situação variada conforme a região e a cadeia produtiva.

Bioeconomia: a nova fronteira de oportunidades

Além das commodities tradicionais, a UE vê potencial explosivo na bioeconomia amazônica. O açaí é o produto mais conhecido, mas há uma lista longa de frutas, peixes e insumos para cosméticos e farmacêuticos ainda pouco explorados pelo mercado europeu.

Programas de cooperação já estão em andamento, como a iniciativa no Parque de Bioeconomia em Belém (PA), sinalizando que o bloco aposta na diversificação da pauta comercial.

O que observar daqui para frente

O cenário para os próximos 24 meses depende de três variáveis: a capacidade dos frigoríficos de implementar rastreamento individual do gado do nascimento ao abate; a manutenção dos índices de controle do desmatamento para atender à EUDR; e a velocidade da redução tarifária do acordo Mercosul-UE para itens já liberados. Quem opera no agronegócio deve monitorar as auditorias sanitárias europeias previstas para 2025 — elas ditarão o ritmo real da reabertura para a carne bovina.