A governadora Celina Leão (PP) inicia seu mandato de quatro anos no Distrito Federal com uma bomba-relógio nas mãos: o Banco de Brasília (BRB) precisa de R$ 6,6 bilhões para não quebrar e as contas públicas acumulam um desequilíbrio que já beira os R$ 6 bilhões. Os dois problemas são faces da mesma moeda — e a conta, no fim, cai no colo do contribuinte.
A origem do caos tem nome e sobrenome: Banco Master. A tentativa de compra da instituição privada, aprovada pela Câmara Legislativa em 2025, deixou um rastro de prejuízos estimados em R$ 8,8 bilhões em créditos “inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação”. A Polícia Federal indiciou 15 pessoas, incluindo o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
O buraco no balanço e a corrida contra o tempo
Desde novembro de 2025, o BRB não publica seu balanço. A governadora nega motivação eleitoral e afirma que a divulgação está travada pela negociação do empréstimo socorro. O GDF recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para viabilizar a captação de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas o governo federal já sinalizou que não dará garantia à operação.
Enquanto o dinheiro não chega, a capitalização do banco segue abaixo dos limites prudenciais do Banco Central. O plano de governo lista nove ações estruturantes — da recuperação da governança à expansão de microcrédito e financiamento a startups —, mas nenhuma delas sai do papel sem a recomposição do patrimônio.
Contas públicas: do “rombo bilionário” à projeção de superávit
Paralelamente, a gestão herdou um cenário fiscal deteriorado. A linha do tempo das declarações oficiais mostra uma escalada nos números:
- Maio: Secretaria de Economia aponta déficit de R$ 1,9 bi no quadrimestre; projeta superávit de R$ 2 bi no fim de 2026.
- Agosto: Governadora fala em “rombo de quase R$ 5 bi”; secretário detalha R$ 5,4 bi de desequilíbrio identificado, citando subsídio do transporte (R$ 1,1 bi descoberto) e despesas acima do orçado em saúde e educação.
- Setembro: PLOA 2027 entregue à CLDF sem previsão de déficit, com receitas e despesas estimadas em R$ 49,8 bi (orçamento próprio) e R$ 80,1 bi somando o Fundo Constitucional.
A estratégia declarada baseia-se em centralização do gasto, corte de contratos (meta de redução de 25%) e aumento de arrecadação. O decreto de contenção de abril criou comitê de controle e deu 60 dias para revisão de contratos. Ainda não há divulgação consolidada do resultado prático desses cortes.
O que o empresariado deve monitorar nos próximos meses
A liberação do empréstimo do FGC — ou a alternativa com bancos árabes mencionada pela governadora — ditará o ritmo da recuperação do BRB. Sem capital, o crédito para micro e pequenas empresas, servidor público e infraestrutura trava. Ao mesmo tempo, a execução orçamentária de 2027 testará se a “liberdade fiscal” das unidades gestoras foi de fato contida. A mudança no cálculo do Fundo Constitucional, que pode retirar R$ 1,8 bi do caixa no ano que vem, adiciona uma variável de risco externo.
Para quem opera no DF, a equação é clara: a solvência do banco público e o equilíbrio das contas do GDF definem a disponibilidade de crédito, a continuidade de contratos públicos e a previsibilidade tributária. O segundo semestre de 2026 será o termômetro real se o choque de gestão prometido virou resultado ou ficou apenas no discurso de posse.
