A liquidante do Banco Master, EFB Regimes Especiais, obteve na Justiça americana uma intimação para que Martha Graeff, ex-noiva do ex-controlador Daniel Vorcaro, deponha sob juramento em Miami no dia 8 de dezembro. O pedido, protocolado no Tribunal de Falências da Flórida, exige ainda a entrega de documentos financeiros até o final de novembro.
A medida atinge diretamente a Graeff Holdings LLC, empresa aberta por ela na Flórida em setembro de 2023. A intimação não a torna ré, mas a coloca no centro da investigação sobre o paradeiro de ativos do banco liquidado pelo Banco Central em novembro de 2024.
O alcance da Regra 2004 e o que está em jogo
O instrumento jurídico utilizado é a Regra 2004 do processo falimentar dos EUA. Ela concede ao administrador judicial poderes amplos para interrogar qualquer pessoa que possa esclarecer a localização de bens do devedor. Na prática, funciona como uma “vara de pesca” legal: permite vasculhar contas, contratos e transferências sem precisar abrir um processo judicial separado contra o alvo.
O escopo temporal cobre janeiro de 2018 até os dias atuais. A lista de alvos inclui 18 pessoas e empresas além de Vorcaro, como o delator Antonio Carlos Freixo Júnior, ex-diretores do Master e a offshore Titan Capital Holding.
Documentos exigidos: do extrato bancário à obra de arte
A solicitação é granular e abrange:
- Imóveis, veículos, joias, relógios e obras de arte;
- Apólices de seguro e contratos de consignação ou venda;
- Fichas cadastrais e extratos bancários completos;
- Rastreamento de origem e destino de pagamentos feitos a Graeff ou às suas empresas;
- Detalhes sobre serviços prestados ao “ecossistema Master”.
O foco explícito é identificar bens mantidos por meio de “laranjas”, *trusts* ou empresas de fachada. A Graeff Holdings, uma LLC da Flórida, não divulga seus sócios nos registros públicos — uma característica padrão dessa estrutura societária americana que dificulta a transparência imediata.
A cobertura em Surfside e o jato Gulfstream
A intimação foi endereçada a uma cobertura de luxo em Surfside, ao norte de Miami Beach, avaliada em US$ 43,9 milhões. O imóvel está registrado em nome da G5C Capital Corporation, empresa canadense criada um dia antes da compra. Não há, nos registros públicos, vinculação direta da G5C com Vorcaro ou com o Master.
Paralelamente, a EFB move ação para reter cerca de US$ 42 milhões provenientes da venda de um jato Gulfstream G700 (prefixo PS-MGG, iniciais de Martha Gonçalves Graeff). O liquidante alega que a aeronave foi adquirida com recursos do banco.
Mensagens vazadas e a estratégia de defesa
Em abril, trocas de mensagens entre Graeff e Vorcaro tornaram-se públicas. Nelas, o ex-banqueiro sugeria transferir bens para o nome dela e negociava a criação de um *trust* em benefício da então noiva. Meses antes, Vorcaro havia comprado uma mansão na Sabal Palm Road por mais de US$ 85 milhões (cerca de R$ 490 milhões à época).
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Graeff negou envolvimento nas investigações e contestou a narrativa de enriquecimento ilícito. “Meu patrimônio é idêntico ao de dois anos atrás. Não ganhei mansão, carro nem barco”, afirmou. Sua defesa, consultada agora, declarou que ela ainda não foi formalmente intimada e que sempre esteve à disposição das autoridades.
O que observar nos próximos passos
Graeff pode contestar o pedido ou solicitar sua anulação perante o tribunal da Flórida. Se o depoimento ocorrer em 8 de dezembro, as respostas sob juramento poderão cruzar dados com as quebras de sigilo já obtidas no Brasil e com os depoimentos de bancos como Bradesco e Itaú, alvos de pedidos semelhantes.
Para investidores e credores, o ponto crítico é a capacidade de recuperação de ativos no exterior. A eficácia da Regra 2004 dependerá da colaboração da testemunha e da rastreabilidade do dinheiro que saiu do Master para estruturas *offshore*. O desfecho desse depoimento pode ditar o ritmo das próximas fases da liquidação internacional.
