Economia

O plano que assusta o mercado: por que a “nova âncora” pode derreter o Real

Ilustração do Real brasileiro sob pressão com gráficos de juros e inflação, representando o plano econômico de Lara Resende
O Real sob tensão: o plano que propõe travar juros e metas fiscais por cinco anos assusta investidores.

A simples menção de que o presidente Lula ouviria o economista André Lara Resende provocou um tsunami nas redes e nas mesas de operação. A proposta, batizada de “Nova Política Econômica”, prevê travar juros, inflação e metas fiscais por até cinco anos via um conselho único. O problema: a arquitetura ignora a dinâmica de mercado aberto e acende o alerta vermelho para quem tem ativos em reais.

O que prevê o plano que virou “pop” no feriado

O núcleo da ideia entrega poder a um Conselho Fiscal e Monetário. Esse colegiado definiria, de uma só vez, a taxa de juros, a meta de inflação e o resultado primário para um mandato longo — quatro ou cinco anos. As taxas seriam tabeladas em patamares “bem baixos”, segundo o próprio autor. Na prática, seria o fim da autonomia operacional do Banco Central e a fusão da política monetária com a fiscal sob uma gestão centralizada.

André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, defende a tese há quase uma década. O artigo de setembro reacendeu o debate, gerando entusiasmo em alas do governo e pânico em analistas de risco. A reação não é ideológica: é matemática.

O efeito imediato: expectativa desancorada e fuga de capital

Se o mercado precifica que juros reais serão negativos ou artificialmente baixos por anos, a conta não fecha. Investidores — bancos, fundos, previdência, poupadores — antecipam a desvalorização cambial e a alta da inflação futura. O resultado prático é uma corrida para sair de ativos denominados em reais antes que a porteira feche.

  • Desvalorização do real: pressão imediata sobre o dólar.
  • Curva de juros longa: taxas de títulos de prazo estendido disparam para embutir o prêmio de risco.
  • Rollover da dívida: o Tesouro passa a emitir só no curto prazo, encurtando o perfil da dívida e elevando o risco de insolvência técnica.

A armadilha das reservas: por que o BC não segura o dólar sozinho

A proposta sugere que o Banco Central use reservas para conter a alta da moeda americana. É aqui que a engenharia falha. Em economia aberta, não é possível fixar a taxa de juros nominal, manter o câmbio estável e permitir livre fluxo de capitais — a famosa “trindade impossível”.

Vender dólares das reservas a preço subsidiado para conter a cotação equivale a financiar a fuga de capitais com o patrimônio líquido do país. As reservas caem, o risco-país sobe e a expectativa de nova desvalorização se autoalimenta. Em 1999, o Brasil viu esse filme: a defesa de banda cambial consumiu reservas até o colapso.

O fim da linha: controles de preços e capital

Quando a âncora nominal estoura e a inflação acelera sem resposta de juros, a história latino-americana mostra o roteiro seguinte: tabelamento de preços e restrição à saída de dólares. São medidas que destroem a alocação eficiente de recursos, secam o investimento produtivo e corroem o salário real. Os defensores do modelo não apresentam plano B para esse cenário de “bola de neve”.

Governo de tecnocratas não eleitos: o nó jurídico

Além da economia, há o entrave institucional. O Conselho proposto teria poderes superiores ao Executivo eleito e ao BC autônomo. Exigiria mudança na lei do Banco Central, no regime fiscal e, possivelmente, na Constituição para permitir emissão monetária direta para financiar o déficit. Seria uma revolução institucional disfarçada de ajuste técnico.

O que observar daqui para frente

O risco não está na adoção imediata — o governo não sinalizou implementar o modelo integral. O perigo está na contaminação das expectativas. Fique atento a três sinais: 1) projetos de lei que ataquem a autonomia do BC; 2) declarações oficiais defendendo “juros estruturalmente baixos” sem lastro fiscal; 3) movimentações atípicas no mercado de câmbio futuro. Qualquer um deles antecipa a reprecificação de risco que o texto acima descreve.