Economia

Reforma tributária: entidades pedem adiamento da CBS para 2028 e alertam para caos operacional

Entidades tributárias entregam carta aberta pedindo adiamento da CBS para 2028
Mais de 20 entidades exigem adiamento da CBS alertando para caos operacional

Mais de 20 das principais entidades de direito tributário do país assinaram carta aberta exigindo o adiamento da implementação efetiva da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) para 2028. O motivo: a menos de dois meses do início previsto, regras essenciais seguem indefinidas e sistemas públicos não funcionam. O que está em jogo não é a reforma em si, mas a viabilidade de sua execução sem gerar insegurança jurídica generalizada.

O cronograma que não fecha

A CBS deve entrar em vigor em 1º de janeiro de 2027. Porém, a alíquota — peça central para qualquer planejamento tributário — só poderá ser definida pelo Senado até 15 de dezembro de 2026. Isso deixa às empresas uma janela de pouco mais de duas semanas para calcular impactos, renegociar contratos, revisar preços e ajustar operações inteiras.

Para setores com cadeias longas ou margens comprimidas, o prazo é tecnicamente impossível. A carta assinala que cada segmento econômico tem particularidades que exigem simulações detalhadas, não estimativas genéricas. Sem a alíquota final, qualquer projeção vira chute.

Sistema de apuração: a ferramenta que não existe

O governo prometeu um sistema de apuração assistida que cruzaria dados das operações para calcular CBS e IBS automaticamente. A realidade: a plataforma não está pronta. Sem ela, as companhias não conseguem testar rotinas, validar créditos nem treinar equipes.

O vazio tecnológico cria um círculo vicioso. O poder público atrasa a entrega da ferramenta; as empresas ficam sem parâmetros para adaptar seus ERPs; quando o sistema finalmente sair, não haverá tempo para correções antes do “go-live”.

O que as empresas precisam adaptar — e não têm tempo para fazer

  • ERPs e sistemas de gestão: nova parametrização tributária, regras de crédito/débito, tratamentos de exceção
  • Emissão de notas fiscais: layout novo, campos adicionais, validações em tempo real
  • Controles internos: rastreabilidade de créditos, conciliação com o portal público, auditoria de apuração
  • Contratos comerciais: cláusulas de repasse, revisão de preços, gatilhos de renegociação

Cada item acima exige meses de desenvolvimento, testes em homologação e validação com contadores e advogados. O atraso na definição das regras públicas comprimiu essa janela a um ponto crítico.

O risco judicial que ninguém resolveu

Em 2027, o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) começa a incidir com alíquota de 0,1%. A CBS entra junto. Dois tributos novos, bases de cálculo sobrepostas, mas competências judiciais distintas: IBS é municipal/estadual, CBS é federal.

O resultado previsível: uma mesma operação poderá gerar decisões contraditórias em esferas diferentes. Não existe hoje mecanismo de harmonização para esses conflitos. As entidades alertam que, sem uma estrutura processual prévia, o contencioso explodirá antes mesmo de o sistema amadurecer.

O que diz quem entende do assunto

Gustavo Brigagão, presidente nacional do CESA (Centro de Estudos das Sociedades de Advogados), resume a posição das 25 signatárias: “Não se trata de resistir às mudanças, mas de assegurar que sejam feitas com responsabilidade e segurança jurídica. O ano de testes de 2026 não cumpriu sua finalidade, sobretudo pelos atrasos do próprio poder público.”

A lista de entidades inclui AASP, ABDF, IAB, OAB-DF, CESA, IASP, IBDT e outras 17 organizações especializadas. Não são opositores da reforma — são os técnicos que terão de fazê-la funcionar na prática.

O que observar daqui para frente

O Senado tem até meados de dezembro para votar a alíquota da CBS. Se o prazo for mantido, janeiro de 2027 será um teste de estresse real para milhares de empresas — sem rede de proteção. Acompanhe três sinais:

  • Publicação da alíquota oficial e das regras de transição
  • Disponibilização do ambiente de homologação do portal de apuração assistida
  • Edição de normas para harmonização de conflitos IBS/CBS no Judiciário

Se nenhum dos três avançar nas próximas semanas, a pressão por adiamento formal deve crescer — e o custo da improvisação recairá sobre quem produz, emprega e paga impostos no Brasil.