A Jaguar Land Rover encerrou a produção nacional e tirou do cardápio qualquer modelo abaixo de R$ 700 mil. O primeiro ato da nova fase é o Range Rover Sport Dynamic, um híbrido plug-in de 550 cv que custa R$ 1,06 milhão.
A jogada expõe um dilema: a marca aposta no topo do luxo enquanto concorrentes chineses entregam desempenho parecido por menos da metade do preço. Vale a pena pagar o prêmio pela “realeza” britânica?
O que o novo Sport entrega de verdade
O motor 3.0 de seis cilindros em linha trabalha com um sistema plug-in recarregável na tomada. A autonomia elétrica declarada é de 70 km — suficiente para o deslocamento urbano diário sem queimar uma gota de gasolina.
A potência combinada leva o SUV de 0 a 100 km/h em 4,9 segundos. Números que, no papel, igualam esportivos dedicados. Mas o teste real aconteceu no Circuito Panamericano, em Elias Fausto (SP), sob asfalto molhado e curvas fechadas.
Comportamento dinâmico: disfarçando 2,5 toneladas
A suspensão inteligente é o destaque. Ela consegue mascarar o peso de mais de 2.500 kg em mudanças bruscas de direção, mantendo a carroceria composta mesmo no limite. Em piso escorregadio, a tração integral e a vetorização de torque fazem o trabalho parecer fácil.
Não houve tempo para avaliação em ruas e estradas. O primeiro contato, porém, confirma que o acabamento interno segue como referência: bancos com ajustes milimétricos, sistema de som com 15 alto-falantes e uma qualidade tátil e olfativa que os rivais ainda tentam copiar.
Onde a idade começa a pesar
A geração atual estreou em maio de 2022. No segmento de luxo, dois anos não é muito — mas basta para que a central multimídia, a instrumentação digital e os assistentes de condução fiquem um passo atrás do novo Porsche Cayenne, que já roda com arquitetura elétrica mais moderna e telas integradas ao painel do passageiro.
O problema não são os chineses que imitam a silhueta por R$ 400 mil. É que os pares de prestígio — Porsche, BMW X5 M, Mercedes GLE 63 — renovaram a experiência a bordo e a conectividade. O Range Rover ainda vive na geração anterior de software.
Fim de Itatiaia: prejuízo ou alívio?
A fábrica fluminense produziu Evoque e Discovery Sport por poucos anos, sem atingir volumes que justificassem o investimento. O fechamento não gerou demissões em massa, mas deixa um ativo ocioso em uma região estratégica.
Negociações avançadas colocam a chinesa Chery como compradora. O plano: fabricar no local os modelos das marcas Omoda, Jaecoo e iCar. Se confirmado, o Brasil troca a montagem de ingleses por chineses — com volumes potencialmente maiores e ticket médio bem menor.
O que observar nos próximos meses
- Chegada do Range Rover Electric: o primeiro 100% elétrico da marca deve desembarcar em 2025 e pode resetar a conversa tecnológica.
- Definição da venda de Itatiaia: o contrato com a Chery (ou outro grupo) sinaliza se o Brasil segue como base produtiva ou vira apenas importador.
- Resposta da concorrência premium: BMW e Mercedes já preparam atualizações de meio de ciclo para X5 e GLE; a briga por tecnologia de bordo vai escalar.
Para o executivo ou investidor que acompanha o setor, o recado é claro: a JLR escolheu margem em vez de volume. O risco é ficar refém de um nicho que encolhe a cada lançamento chinês com mais tela, mais software e preço agressivo. O luxo britânico ainda tem apelo — mas precisa provar que a tecnologia a bordo justifica o prêmio de R$ 600 mil sobre a concorrência asiática.
