Economia

O segredo fiscal que o governo evita contar para 2027

Gráfico mostra dívida pública brasileira subindo 10 p.p. do PIB até 2027 apesar de crescimento econômico
Projeção fiscal aponta ajuste inevitável em 2027 mesmo com economia em expansão

O Brasil encerra 2026 com a dívida pública 10 pontos percentuais do PIB mais alta, apesar de crescer 2,7% ao ano e manter o desemprego em níveis mínimos. A trajetória fiscal, porém, não fecha — e a conta vai chegar em 2027.

Não houve pandemia, recessão ou choque externo que justifique o salto. O diagnóstico aponta para um “freio de arrumação” no primeiro ano do próximo mandato. Entender o tamanho desse ajuste é essencial para quem toma decisões de investimento ou gere negócios no país.

O buraco aritmético que ninguém mostra

O déficit primário ronda -0,5% do PIB, mas estabilizar a dívida exige superávit de 1,5% a 2%. Em 2023, a promessa era entregar 1,0% em 2026; a meta foi abandonada no meio de 2024 e a percepção de risco disparou.

Com a economia operando acima da capacidade, a política fiscal pró-cíclica joga a conta no colo do Banco Central. Juros reais altos encarecem o serviço da dívida, que cresce mais, exigindo juros ainda maiores. É o clássico “pé no acelerador e no freio”.

Impacto direto no seu bolso e nos negócios

Juros reais elevados significam custo de capital mais caro para empresas, crédito mais restrito para famílias e menos espaço orçamentário para infraestrutura. O cenário base do mercado projeta dívida bruta acima de 90% do PIB em 2028 se nada mudar.

Para o empresariado, isso se traduz em planejamento de expansão travado, maior volatilidade cambial e pressão sobre margens. O investidor estrangeiro, por sua vez, exige prêmio de risco maior para carregar ativos brasileiros.

Onde cortar sem tirar direitos dos mais pobres

A experiência de ajustes bem-sucedidos mostra que pacotes combinados de receita e despesa funcionam melhor. A lista de gastanças que podem ser reduzidas sem piorar o bem-estar social é extensa:

  • Supersalários no serviço público que furam o teto constitucional via penduricalhos.
  • Emendas parlamentares que cresceram de forma explosiva e têm baixa qualidade alocativa.
  • Distorções no Bolsa Família: volume atípico de famílias unipessoais aponta para cadastros irregulares.
  • Fraudes na aposentadoria rural e no auxílio-doença com indícios robustos de desperdício.
  • Gastos tributários e regimes especiais que beneficiam sobretudo o topo da distribuição de renda.

A receita do pré-sal e a parte de estados e municípios

O crescimento expressivo das receitas de petróleo até o começo da década de 2030 pode financiar parte do ajuste primário. Estados e municípios, por sua vez, precisam contribuir com superávits próprios, como fizeram entre 1999 e 2004.

O PLOA 2027 já prevê meta de superávit de 0,5% no ano que vem, caminhando para 1,5% em 2030. Cumprir esses números sem contabilidade criativa é o teste de credibilidade do próximo governo.

O que observar daqui para frente

O ano de 2027 é a janela natural para a arrumação. Adiar o ajuste significa conviver com juros altos, crescimento menor e dívida explosiva. Acompanhe três sinais concretos nos primeiros meses do novo mandato: envio de proposta de reforma administrativa com foco em supersalários, revisão criteriosa de emendas impositivas e uso transparente das receitas do pré-sal no resultado primário. Esses movimentos ditarão se o país migra para um equilíbrio com juros menores e espaço fiscal — ou se o ciclo de “freio e acelerador” continua consumindo o potencial de crescimento.