A Dívida Pública Federal (DPF) fechou setembro em R$ 9,383 trilhões, alta de 0,97% sobre agosto, mas o motor desse avanço não foi a captação nova. O Tesouro emitiu apenas R$ 3,78 bilhões a mais do que resgatou; foram os juros, apropriados a R$ 89,29 bilhões, que empurraram o estoque para perto do teto histórico.
Com a Selic a 13,75% ao ano, o custo de carregar a dívida supera em muito a entrada de caixa líquido. A pergunta que fica: até quando o colchão de reserva aguenta a pressão sem exigir rolagens cada vez mais caras?
Juros fazem o trabalho pesado enquanto emissão encolhe
Em setembro, o Tesouro colocou no mercado R$ 189,44 bilhões em títulos. Quase todo esse volume — R$ 185,66 bilhões — voltou para os cofres públicos como resgate, concentrado em papéis atrelados à Selic. O saldo líquido positivo de R$ 3,78 bilhões é irrisório perto da conta de juros.
A apropriação mensal de R$ 89,29 bilhões representa o reconhecimento contábil da correção dos títulos. Na prática, o governo “emite dívida para pagar juros da dívida” sem precisar ir a leilão. Isso explica por que o estoque subiu mesmo com captação líquida praticamente nula.
Composição muda: apetite por prefixados e inflação cresce
A estrutura da dívida interna (DPMFi) deu sinais claros de reposicionamento dos investidores. A fatia atrelada à Selic caiu de 52,74% para 51,6%, enquanto prefixados subiram de 20,31% para 21,14% e indexados à inflação foram de 23,22% a 23,59%.
- Selic: 51,6% (meta de fim de ano: 49% a 53%)
- Inflação (IPCA): 23,59% (meta: 21% a 25%)
- Prefixados: 21,14% (meta: 20% a 24%)
- Câmbio: 3,67% (meta: 3% a 7%)
O avanço dos prefixados e IPCA+ sinaliza que o mercado aceita travar taxas longas, apostando em queda de juros à frente. Já a redução da exposição à Selic reflete a estratégia do Tesouro de alongar o perfil, embora o prazo médio tenha estacionado em 4,1 anos.
Colchão engorda, mas vencimentos de R$ 1,87 tri assombram
A reserva de liquidez — o “colchão” — subiu para R$ 1,273 trilhão, cobrindo 7,71 meses de vencimentos. Em agosto, a cobertura era menor, mas o alívio é temporário. Nos próximos 12 meses, R$ 1,87 trilhão em títulos vence.
Esse volume exige rolagem constante em um cenário de incerteza fiscal. Se a demanda por prefixados secar, o Tesouro será forçado a emitir mais curto (Selic), encurtando o prazo médio e elevando o custo de carregamento.
Estrangeiros reduzem aposta e dívida externa alivia
A participação de não residentes na dívida interna caiu de 9,91% para 9,58% em setembro. A tensão geopolítica no Oriente Médio explicou a fuga de capital externo, que costuma ser termômetro de confiança.
Do lado externo (DPFe), o estoque recuou 0,82% para R$ 345,41 bilhões. O dólar estável e pagamentos correntes de cerca de R$ 3 bilhões ajudaram. A dívida cambial total (interna + externa) segue marginal, em 3,67% do total.
O que observar daqui para a frente
O Plano Anual de Financiamento (PAF) revisado prevê fechamento de 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. A meta de primário, o ritmo de queda da Selic e o fluxo de estrangeiros ditarão se o teto será respeitado ou estourado.
Para o investidor, três variáveis mandam no preço dos títulos nos próximos meses: a ata do Copom sinalizando o ciclo de corte, a execução do arcabouço fiscal no Orçamento de 2027 e a rolagem dos R$ 1,87 trilhão sem solavancos na curva de juros. Quem carrega prefixados longos ganha se a inflação ceder; quem está em Selic carrega proteção, mas paga o custo de oportunidade.
