Economia

Lula tem as cartas na mão para cortar juros? O que Felipe Salto viu que o mercado ignora

Presidente Lula em reunião no Palácio do Planalto, discutindo política fiscal e juros
Lula avalia condições para redução estrutural dos juros, segundo análise de Felipe Salto

O ex-secretário do Tesouro e diretor da IFI, Felipe Salto, afirma que o governo Lula reúne as condições técnicas para estabilizar a dívida pública e abrir espaço para queda estrutural dos juros. A leitura contrasta com o pessimismo dominante no mercado financeiro. O que ele enxerga que os analistas não estão precificando?

A resposta está em três pilares: receitas extraordinárias já contratadas, dinâmica demográfica favorável e uma regra fiscal que, se respeitada, muda a trajetória do endividamento. Mas há um entrave político que pode virar o jogo.

O diagnóstico que quebra o consenso

Salto apresentou os números em evento fechado com investidores institucionais na última semana. A projeção da IFI mostra que a dívida bruta pode estabilizar em torno de 76% do PIB já em 2026 — patamar inferior aos 78,4% estimados pelo mercado para o mesmo horizonte.

A diferença decorre de premissas de crescimento real entre 2% e 2,5% ao ano, combinadas com superávit primário de 0,5% do PIB a partir de 2025. O mercado projeta crescimento menor e déficit persistente.

Se a estimativa da IFI se confirmar, a relação dívida/PIB para de subir dois anos antes do previsto pelo Boletim Focus. Isso altera a percepção de risco soberano e, por tabela, a curva de juros futuros.

De onde vem o otimismo nas receitas

Três fontes concretas sustentam o cenário-base da instituição fiscal:

  • Receitas de petróleo e gás: R$ 45 bilhões extras em 2024, já contabilizados no relatório bimestral de maio
  • Depósitos judiciais e precatórios: fluxo líquido positivo de R$ 28 bilhões este ano
  • Reforma tributária sobre consumo: ganho de eficiência estimado em 0,3 pp do PIB a partir de 2026

Esses números não são projeções teóricas. Estão na última programação orçamentária e no relatório de avaliação de receitas da Receita Federal. O mercado costuma descontar receitas extraordinárias por considerar que não se repetem. Salto argumenta que, somadas, criam um colchão real de dois a três anos.

O fator demográfico que ninguém comenta

Enquanto o debate foca em gasto previdenciário, a IFI aponta que a razão de dependência (idosos sobre população em idade ativa) cresce mais devagar no Brasil do que no México ou Chile. O pico esperado para 2030 foi adiado para 2035 pela revisão do IBGE.

Isso dá janela de dez anos para reformas paramétricas na Previdência sem ruptura fiscal. Para Salto, o tempo joga a favor — desde que a regra de gastos não seja furada por emendas parlamentares.

O risco que pode derrubar a tese

O arcabouço fiscal prevê crescimento real das despesas limitado a 2,5% ao ano. Mas a execução orçamentária de janeiro a abril mostrou expansão de 4,1% acima da inflação. Se o ritmo persistir, a meta de primário de 0% em 2024 vira déficit de 0,6% do PIB.

O Ministério da Fazenda conta com veto a emendas de comissão e bloqueio de R$ 15 bilhões em junho. O Congresso, porém, já articula derrubada. É aqui que a política decide se a “condição técnica” vira realidade.

Cenários para a Selic em 2025

Com dívida estabilizando e inflação convergindo para 3,5%, o modelo da IFI indica Selic terminal de 9% no fim de 2025 — contra 10,5% do Focus. Cada ponto percentual a menos na taxa básica economiza R$ 40 bilhões anuais em serviço da dívida.

Mas o cenário base exige três condições simultâneas:

  • Aprovação da reforma da renda (imposto sobre dividendos e JCP) ainda no primeiro semestre
  • Manutenção do teto de gastos do arcabouço sem “waivers” legislativos
  • Não deterioração do cenário externo (Fed cortando juros a partir de setembro)

O que observar daqui para frente

O próximo relatório bimestral de receitas e despesas, previsto para 22 de julho, será o primeiro teste real. Se o governo confirmar bloqueio de R$ 15 bi e o Congresso não derrubar vetos, a trajetória da IFI ganha credibilidade imediata. Caso contrário, o mercado volta a precificar prêmio de risco elevado e a Selic não cai.

Para o investidor, o sinal claro está na curva de juros reais (NTN-B 2035). Se o prêmio cair abaixo de 5,8% ao ano nas próximas semanas, o mercado já estará antecipando o cenário de Salto. Se subir acima de 6,2%, a aposta é de continuidade do aperto fiscal frouxo.

A janela está aberta. A execução orçamentária de junho a agosto dirá se ela se fecha ou se alarga.