Justiça

MPSP assume controle de 58 mil câmeras: o fim da impunidade em SP?

Mapa de São Paulo com ícones de 58 mil câmeras do SmartSampa sob controle do Ministério Público
MPSP passa a acessar diretamente as 58 mil câmeras do SmartSampa para acelerar investigações criminais.

O Ministério Público de São Paulo acaba de ganhar acesso direto à maior rede de monitoramento urbano do país. Dois acordos técnicos assinados com a prefeitura colocam o SmartSampa — sistema com 58 mil câmeras espalhadas pela capital — a serviço do Gaeco e do núcleo de combate à violência de gênero. A promessa: investigações mais rápidas e agressores que antes sumiam no mapa.

Mas será que a tecnologia sozinha resolve o que décadas de policiamento tradicional não resolveram?

Dois acordos, dois alvos distintos

O primeiro convênio, com vigência de 12 meses renováveis, entrega ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) o uso do sistema para apoiar investigações e ações de prevenção e repressão. O promotor Luiz Fernando Bugiga Rebellato, do Gaeco, foi direto: a estrutura tem “potencial muito grande para aprimorar nossas investigações”, citando monitoramento de deslocamentos e policiamento preventivo.

O segundo acordo mira um problema crônico: cerca de 40% dos homens com medidas protetivas contra eles nunca são encontrados para serem notificados. O prazo aqui é longo — 60 meses, também prorrogáveis. A Guarda Civil Metropolitana usará as câmeras para localizar esses agressores e fazer a notificação presencial.

O efeito imediato nas investigações

Até agora, o Gaeco dependia de requisições pontuais de imagens ou de parcerias informais. Com acesso integrado, promotores podem cruzar dados de deslocamento, identificar padrões de rota de facções e monitorar pontos de venda de drogas em tempo real. A capacidade de reconstruir trajetórias de suspeitos antes, durante e após crimes muda a velocidade das diligências.

Não é vigilância passiva. É inteligência tática alimentada por 58 mil sensores ópticos.

Violência de gênero: o gargalo da notificação

O dado dos 40% não notificados expõe uma falha operacional perigosa. Medidas protetivas só valem quando o agressor toma ciência formal da proibição. Sem notificação, não há crime de descumprimento — e a vítima fica desprotegida juridicamente.

A GCM passa a atuar como braço de execução: câmeras localizam o alvo, viaturas fazem a abordagem e lavram o termo. Simples no papel, complexo na prática. Mas a estrutura existe.

Infraestrutura em expansão — e um vazamento

A prefeitura confirma: mais 20 mil câmeras serão instaladas nos próximos meses, elevando a rede para 78 mil equipamentos. A cobertura passará a incluir áreas hoje cegas, especialmente em periferias onde o crime organizado opera com mais liberdade.

Na semana passada, porém, vazou a informação de que um operador acessou dados indevidamente. A gestão municipal classificou o caso como isolado e descartou falha sistêmica de segurança. O episódio, contudo, acende o alerta: quem vigia os vigilantes?

O que observar daqui para frente

A integração entre Ministério Público e monitoramento municipal cria um precedente. Se funcionar em São Paulo, outros estados replicarão o modelo. Três pontos merecem acompanhamento próximo: a taxa de conversão de imagens em denúncias formais, o tempo médio entre flagrante e ação policial, e a resposta do Judiciário à enxurrada de provas digitais que virão.

Para o empresário ou investidor, o recado é claro: a cidade está se tornando um laboratório de segurança baseada em dados. Quem atua em logística, varejo ou facilities em SP verá o ambiente mudar — para melhor ou para mais controlado, depende do lado da mesa onde você senta.