Economia

O efeito Ozempic: quem lucra bilhões e quem vê a receita derreter

Gráfico mostra impacto econômico do Ozempic e GLP-1 em setores como aviação, moda e academias
A revolução dos medicamentos GLP-1 está reescrevendo a economia setorial nos EUA.

Um em cada dez americanos já usa medicamentos GLP-1 para emagrecer, e o choque de oferta já derrubou a receita de uma alfaiataria de quinta geração em 12%. Enquanto isso, academias lotam e companhias aéreas calculam economias de US$ 580 milhões por ano. A revolução do peso está reescrevendo o PIB setorial — e a conta chegou para quem não se preparou.

Em junho, 38 milhões de pessoas nos EUA faziam uso ativo desses remédios, segundo a Gallup. No Reino Unido, a PwC estima 5% da população adulta tratada. Mais de 200 empresas de capital aberto fora da saúde citaram o fenômeno em teleconferências recentes, o dobro do ano anterior. O comportamento do consumidor mudou de forma permanente: a moderação virou argumento de venda e a indústria corre para redesenhar portfólios.

Onde o dinheiro está aparecendo

O primeiro grande vencedor não é farmacêutico. Redes de academias como PureGym e Planet Fitness viram o temor inicial — de que a pílula substituísse o treino — virar oportunidade. Usuários de GLP-1 perdem massa muscular e densidade óssea rápido; a musculação virou prescrição médica. Dados da PwC mostram alta de 36% no cardio e 27% dos usuários britânicos planejam gastar mais com atividade física. A parceria da Planet Fitness com a telemedicina Ro já é um dos benefícios mais usados da história da rede.

No varejo de beleza, a conta fecha no colágeno e na proteína. O Boston Consulting Group detectou que pacientes gastam 20% mais em suplementos — proteínas, fibras e colágeno lideram. Cabelo e unhas sobem 16%. A Galderma vê disparada na demanda por injetáveis contra flacidez facial; a L’Oréal já desenvolve séruns específicos para a “face Ozempic”.

O caso mais curioso está no ar. Sheila Kahyaoglu, do Jefferies, calculou: se o passageiro médio emagrecer 10%, um Boeing 737 Max 8 decola 2% mais leve. Para as quatro maiores aéreas dos EUA, a economia de combustível beira US$ 580 milhões anuais (R$ 3,1 bi). O peso poupado ainda abre espaço para cargas mais lucrativas, embora a venda de lanches a bordo caia.

Onde a receita está evaporando

Alimentos ultraprocessados levam a pancada mais dura. Pesquisa da PwC: 61% dos usuários cortaram lanches açucarados; 9% eliminaram de vez. Estudo de Cornell e Numerator confirma: nos primeiros seis meses, gastos com doces caem 9% e salgadinhos, 11%. A resposta da indústria é o “menos, mas melhor”: porções menores, preços iguais ou maiores, foco em proteína. O iogurte proteico escapa ileso — vendas subiram 6,7% em agosto nos EUA.

No álcool, o impacto é real, mas moderado. A Diageo reporta queda de 2% em destilados, 4% em cerveja e 5% em vinho entre usuários. Metade ainda frequenta bares semanalmente. “Querem mostrar o progresso”, resume a estrategista Hannah Brooks. O estudo de Cornell viu queda de apenas 1% no álcool contra 5,3% no total do carrinho de supermercado.

Restaurantes de serviço rápido sangram mais. Domino’s admitiu crescimento abaixo da inflação; clientes compram menos itens por pedido. McDonald’s lança tigelas de proteína e ovos em porções reduzidas; KFC testa combos a US$ 3,49. Entregas e fast-food sofrem; restaurantes com serviço de mesa resistem. O perigo agora é a shrinkflation: cliente emagrecido espera pagar menos pela porção menor, não o mesmo preço.

O caos invisível no varejo de moda

PwC: 75% dos usuários relatam “mudança significativa” de tamanho; 26% gastam mais em roupas, migrando para marcas caras. Parece bom, mas a Macy’s alertou: “negócio de tamanhos grandes muito fraco”. O alfaiate Alan Horowitz resume o pesadelo operacional: noivos oscilam 13 kg entre provas, ternos precisam ser refeitos às pressas e a promessa de “ajustes vitalícios” virou prejuízo certo. “O cara que nunca pedalou volta em um mês 13 kg mais leve. Isso custa muito dinheiro”, diz ele.

O que observar daqui para frente

O ciclo ainda está no começo. Comprimidos orais, queda de custos e genéricos a partir do início dos anos 2030 — quando expiram as patentes da semaglutida — vão expandir a base de usuários exponencialmente. Para o executivo ou investidor, a métrica chave não é mais “quem toma”, mas quão rápido a cadeia de valor se adapta. Empresas que tratarem a porção reduzida como defeito de fabricação vão perder margem; as que a venderem como “precisão nutricional” vão capturar o ticket médio mais alto. O próximo balanço trimestral dirá quem entendeu o recado.