O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos menos de 48 horas após perder a eleição presidencial, pegando de surpresa até o coordenador de sua campanha, Rogério Marinho (PL-RN). A movimentação ocorre no mesmo dia em que a Polícia Federal cancelou seus passaportes por descumprimento de ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
O que se sabe até agora
A agência Reuters noticiou o embarque na terça-feira (27), citando um interlocutor do governo americano. Flávio viajou com a esposa e as filhas. Horas antes, por volta das 8h, enviou mensagem a aliados dizendo que iria “dar um tempo” e depois retomaria o contato.
Marinho afirmou à imprensa que a expectativa era outra: Flávio assumiria a liderança da oposição, capitalizando os cerca de 60 milhões de votos obtidos no pleito. “Estamos surpresos”, resumiu o senador potiguar após reunião da bancada do PL em Brasília.
O pano de fundo judicial
A saída do país acontece em meio a uma teia de inquéritos. Flávio é investigado pela Polícia Federal por:
- Evasão de divisas
- Lavagem de dinheiro
- Corrupção
Em fevereiro de 2027, seu mandato de senador pelo Rio de Janeiro se encerra — e com ele, o foro privilegiado no STF. A perda da prerrogativa de foro transferiria os processos para a primeira instância, onde costumam avançar com mais celeridade.
A ordem de Moraes e o cancelamento dos passaportes
Na segunda-feira (26), o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes à PF. A decisão corre em segredo de justiça, mas foi tornada pública pelo próprio Flávio nas redes sociais. O documento integra inquérito que apura lavagem de dinheiro envolvendo o parlamentar e o advogado Willer Tomaz.
Como os passaportes não foram apresentados no prazo, a PF procedeu ao cancelamento direto dos documentos. Ainda assim, o embarque ocorreu.
Versões divergentes e silêncio oficial
Em vídeo postado na véspera da fuga, Flávio negou planos de deixar o país e prometeu entregar os passaportes. A assessoria não respondeu aos questionamentos da Agência Brasil até o fechamento desta reportagem.
Do lado dos aliados, o senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ) deu uma leitura política ao episódio: “Flávio Bolsonaro foi para os EUA para não ser usado como moeda de troca contra o impeachment de Moraes”.
Até o momento, nenhuma autoridade brasileira ou americana confirmou oficialmente a entrada de Flávio em solo dos EUA.
O vácuo de liderança na oposição
A ausência do principal nome da chapa derrotada cria um vácuo imediato. O PL, maior bancada do Congresso, perde seu articulador natural para a transição. Marinho, que coordenou a campanha, agora precisa reorganizar a estratégia parlamentar sem o protagonista esperado.
Parlamentares da base bolsonarista avaliam reservadamente que a fuga enfraquece o discurso de enfrentamento institucional — justamente no momento em que o partido tentava costurar uma agenda de obstrução ao governo eleito.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem atenção nos próximos dias:
- Posicionamento do STF: Moraes pode determinar medidas cautelares adicionais, incluindo pedido de cooperação internacional.
- Reação do PL: A bancada definirá novo líder de oposição — ou rachará em torno de nomes alternativos.
- Desdobramento dos inquéritos: Com a perda do foro prevista para fevereiro de 2027, a PF e o MPF ganham autonomia para acelerar denúncias.
Para investidores e analistas de risco político, o episódio sinaliza instabilidade na articulação da oposição e reforça a judicialização como vetor central do cenário brasileiro nos próximos trimestres.
