Eleitores da Califórnia decidirão nas urnas se o estado cria o primeiro imposto global direcionado exclusivamente a bilionários. A Proposição 40 prevê alíquota de 5% sobre patrimônio líquido acima de US$ 1 bilhão, atingindo pouco mais de 200 contribuintes. O resultado pode redefinir a relação entre riqueza extrema e finanças públicas nos EUA.
A medida mira arrecadar US$ 100 bilhões para cobrir buracos no orçamento da saúde, agravados por cortes federais. Mas a votação expõe um racha profundo: enquanto sindicatos e o senador Bernie Sanders defendem a “conta justa”, o governador Gavin Newsom e gigantes do Vale do Silício alertam para uma fuga de capitais irreversível.
Como funciona a taxação inédita
Se aprovada, a regra valerá retroativamente para residentes em 1º de janeiro de 2026. A lista de alvos inclui nomes como Mark Zuckerberg (Meta), Oprah Winfrey, Sergey Brin (Google) e George Lucas. Estimativas projetam que o CEO da Meta desembolsaria até US$ 12,5 bilhões anuais.
- Alvo: Patrimônio líquido superior a US$ 1 bilhão.
- Alíquota: 5% ao ano.
- Arrecadação estimada: US$ 100 bilhões (cerca de R$ 496 bilhões).
- Destino: Financiamento do sistema de saúde estadual.
Diferente do imposto de renda, que tributa fluxo, este atinge o estoque de riqueza — ações, imóveis, ativos privados. É essa característica que assusta investidores e consultores tributários.
O êxodo antecipado já começou
Pelo menos seis bilionários teriam deixado o estado antes da data-base de 2026 para evitar a mordida. Don Hankey, do Hankey Group, mudou-se para Nevada alegando sentir-se “não bem-vindo”. Peter Thiel, Travis Kalanick e os cofundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, também teriam partido.
A Meta reagiu blindando seu controlador: aprovou novo pacote de ações para compensar Zuckerberg pela eventual perda bilionária. Andy Fang, da DoorDash, classificou a proposta de “estúpida” e assumiu publicamente planejar a saída. O movimento valida o medo de Newsom: a base do imposto de renda estadual — altamente dependente do 1% mais rico — encolheria.
Argumentos de lado a lado
Defensores citam a desigualdade recorde: o 1% mais rico dos EUA detém 32% da riqueza nacional. Na Califórnia, 72% da população acredita que o governo deve agir para reduzir o abismo. Para o sindicato SEIU-UHW, o imposto é “solução de curto prazo” para evitar colapso hospitalar.
Críticos trazem evidências internacionais. A Noruega viu mais super-ricos partirem em 2022 do que nos 13 anos anteriores somados, após alta no imposto sobre patrimônio. Na Suíça, aumento de 0,1 ponto percentual reduziu a base tributável em 3,5%. O economista Kristian Niemietz resume: “Dão mais trabalho do que valem a pena”.
Sergey Brin doou mais de US$ 100 milhões a comitês contrários. Curiosamente, Jensen Huang (Nvidia) e Tom Steyer declararam voto a favor. Huang disse: “Quanto mais você ganha, mais impostos paga. Para mim, tudo bem”.
O que as pesquisas mostram agora
Levantamento de setembro (IGS Berkeley/LA Times) revela cenário indefinido: 45% a favor, 42% contra, 13% indecisos. A maioria simples basta para aprovação. Paralelamente, Washington vota imposto de 9,9% sobre renda acima de US$ 1 milhão — teste complementar de apetite por tributar o topo.
O que observar daqui para frente
Se passar, a implementação enfrentará batalhas judiciais imediatas sobre constitucionalidade e avaliação de ativos ilíquidos. O precedente político, porém, já está posto: a Califórnia testa o limite da tolerância fiscal da elite global. Para investidores e gestores, o sinal é claro — a geografia da riqueza está em negociação aberta. Acompanhe a migração de domicílios fiscais e a reação de outros estados azuis; o efeito dominó pode começar em novembro.
