O agronegócio brasileiro entra no novo mandato de Lula sob uma tempestade perfeita: juros altos, commodities em baixa e o fantasma do El Niño pairando sobre a safra 2026-27. A história se repete, mas os números agora são mais cruéis.
Em 2006, o então ministro Roberto Rodrigues classificou o momento como “uma das piores crises das últimas décadas”. Câmbio desfavorável, custos explodindo, preços caindo e secas no Sul dizimavam a renda do produtor. A resposta veio com seguro rural, fundo de catástrofes, biodiesel e aporte forte na Embrapa.
Por que o passado não ficou para trás
Dezessete anos depois, o roteiro é assustadoramente similar. A diferença está na conta: a Selic a 13,75% estrangula o crédito rural justamente quando o produtor mais precisa rolar dívidas. Não é um problema só do campo — mas no agro ele vira perda de renda imediata.
Sem um programa de renda estruturado, com divisão de risco entre Estado e setor privado, cada choque climático ou de mercado vira crise sistêmica. O seguro rural, hoje dependente quase total do Tesouro, não dá vazão à demanda.
O que os números revelam sobre a safra que vem
O governo projeta 367 milhões de toneladas de grãos em 2026-27 — novo recorde. Mas a projeção ignora uma variável perigosa:
- El Niño já castiga o Cone Sul; chuvas excessivas no RS e seca no Norte/Nordeste
- Custos de produção subiram 18% em 2023 (fertilizantes, diesel, defensivos)
- Commodities operam 22% abaixo do pico de 2022 — estoques globais recompostos
Se o clima frustrar a colheita, o prejuízo dobra: o produtor colhe menos com custo maior. Para o Planalto, a conta chega na inflação dos alimentos — que pesa 25% no IPCA.
Guerra lá fora, conta paga aqui
Os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio alongaram-se além do previsto. Resultado: ureia e MAP encareceram 34% em dólar nos últimos 18 meses. O diesel, mesmo com desonerações, segue pressionado pela paridade internacional.
Cada ponto percentual a mais no custo do fertilizante tira R$ 4,2 bilhões da margem agregada do setor — segundo estimativas da Conab cruzadas com dados da ANDA.
O alívio que vem da diplomacia
Do lado externo, há um contraponto. A vitória de Lula afasta o risco de alinhamento automático com Washington contra Pequim. No governo anterior, a pressão de Trump sobre Bolsonaro para restringir tecnologia chinesa no 5G gerou ruído nas negociações de soja e carne.
Hoje, o fluxo com a China — destino de 32% do agro brasileiro — corre sem sobressaltos diplomáticos. Mas não é passe livre.
O muro europeu que vem aí
A partir de 2025, a União Europeia exige rastreabilidade total e comprovação de desmatamento zero para importar soja, carne, café e celulose. O Brasil ainda não tem sistema nacional unificado de certificação. Quem não se adaptar, fica de fora de um mercado de US$ 18 bilhões/ano.
O governo promete plataforma única até o segundo semestre. O setor cobra cronograma e testes piloto.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo do agro nos próximos 18 meses: a intensidade do El Niño entre dezembro e março, a velocidade de queda da Selic (cada 0,5 pp economiza R$ 1,8 bi no custeio) e a implementação prática do sistema de rastreabilidade para a UE. Quem acompanha só o volume da safra perde metade do filme.
