Cultura

O cálculo silencioso dos pastores: por que a direita evangélica hesitou em Flávio Bolsonaro

Pastores evangélicos em reunião reservada discutindo apoio político a Flávio Bolsonaro com metáfora bíblica de Eli
Lideranças evangélicas avaliam apoio a Flávio Bolsonaro usando analogia do sacerdote Eli e filhos corruptos

A liderança evangélica fechou com Flávio Bolsonaro na reta final, mas o apoio veio tarde, relutante e movido por pragmatismo, não convicção. O que explica o silêncio de meses?

Nos bastidores, grandes pastores comparavam a família Bolsonaro à dinastia do sacerdote Eli — pai honrado que não conteve filhos que “roubavam as ofertas do templo”. A imagem circulava em grupos restritos de WhatsApp muito antes de virar voto público.

O gatilho que mudou tudo em setembro

Até meados do ano, o campo evangélico majoritário jogava parado. Silas Malafaia, referência do segmento, chegou a declarar em vídeos que a candidatura “não é negócio de família” e defendia abertamente Tarcísio de Freitas. A virada ocorreu quando o ministro André Mendonça tornou públicas mensagens entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Vorcaro, além do contrato deste com a esposa do magistrado.

A revelação incendiou a base bolsonarista. Os pastores entraram em campo depois — não antes — do incêndio estar aceso.

Por que Tarcísio era o preferido dos templos

Três fatores pesavam contra Flávio na conta dos estrategistas religiosos:

  • Viabilidade eleitoral: a leitura interna era de que Tarcísio venceria Lula; Flávio tinha mais chance de perder.
  • Riscos de imagem: mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, imóveis pagos em dinheiro vivo, recursos de Vorcaro para filme sobre Jair Bolsonaro e a mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro.
  • Projeto de poder: uma derrota de Flávio comprometeria a hegemonia da direita em 2026.

O rótulo de “novo crente” e a desconfiança teológica

Um interlocutor próximo ao meio evangélico definiu Flávio como “novo crente” — variação de “novo rico”: alguém que quer parecer mais evangélico do que é, usa a fé como ferramenta política sem dominar o texto bíblico e chegou à religião por uma igreja vista como seduzida pelo poder, a Comunidade das Nações.

Essa percepção não é detalhe. Líderes de denominações históricas — Assembleia de Deus Belém, Madureira, Ministério do Belém — valorizam formação teológica e tempo de casa. O atalho incomoda.

O pragmatismo falou mais alto

Quando o apoio finalmente veio, foi calculado. Flávio era o nome da direita que carregava o voto bolsonarista raiz e tinha chance real de vitória. Somaram-se a isso a pressão da base fiel e o interesse estratégico de manter proximidade com um futuro presidente.

Antes da arrancada nas pesquisas, porém, muitos pastores já admitiam entre si que 2026 estava perdido e projetavam Tarcísio para 2030.

O caso Otoni e a ponte que o PT não cruzou

Na vitória, o PT evitou citar Otoni de Paula. Conservador nos costumes e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, o deputado não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mas não se entregou. Visto com desconfiança pelos petistas, pode se tornar canal de negociação com as grandes igrejas — algo que o PT e seus evangélicos não quiseram ou não conseguiram construir.

O que observar daqui para frente

A aliança entre direita evangélica e Flávio Bolsonaro nasceu frágil. O apoio é transacional, não identitário. Se o senador não entregar pautas prioritárias do segmento — escolas confessionais, liberdade religiosa, pauta de costumes —, o silêncio de 2024 pode virar oposição aberta em 2026. Enquanto isso, Tarcísio segue como “plano B” guardado na gaveta dos grandes templos. O xadrez continua.