Dois presidentes consecutivos não conseguiram romper a barreira dos 38% de aprovação “ótimo ou bom” — um feito inédito na redemocratização. O Datafolha confirma: nem Lula 3 nem Bolsonaro escaparam de uma rejeição crônica que ultrapassa um terço do eleitorado desde o primeiro dia de mandato.
Diferente de FHC, Lula 1 e 2 ou Dilma 1 — que tocaram picos altos antes de despencar —, a dupla atual convive com o desgaste como condição permanente. A pergunta que fica: é apenas polarização ou algo mais profundo mudou nas entranhas do país?
A anatomia de uma insatisfação que não passa
Crises agudas explicam o tombo de FHC 2 e Dilma 2. Já o mal-estar atual tem cara de doença crônica. A década de 2014 a 2023 deixou cicatrizes que não somem com discurso: custo de vida nas alturas, endividamento das famílias, precarização do trabalho e a sensação — real — de que a mobilidade social travou.
Some-se a isso a política mediada por algoritmos, que premia o extremo e pune a negociação. Não é fenômeno só nosso: governos mundo afora enfrentam a mesma dificuldade de reeleição há quase dez anos.
O que os números mostram sobre 2026 e 2027
- Eleição dividida: cenário provável de votação apertada, com o vencedor largando com aprovação limitada.
- Ano de 2027: projeção de estagnação ou recessão, salários e benefícios contidos, disputa feroz por recursos públicos.
- Cenário Lula 4: presidente politicamente encurralado desde o primeiro mês.
- Cenário Bolsonaro 2: início marcado por tentativas de revanches e indultos polêmicos.
Em ambos os casos, promessas de campanha não cumpridas — os chamados estelionatos eleitorais — aceleram a erosão de prestígio. A demagogia, por sua vez, antecipa crises estruturais.
Quando o Congresso vira o poder real
A história recente ensina: presidentes sem popularidade e sem base parlamentar ou caem (Collor, Dilma) ou entregam o comando ao Legislativo (Temer, Bolsonaro). Na prática, o Brasil opera um semipresidencialismo sob chantagem — ou um semiparlamentarismo de improviso.
A ascensão definitiva do centrão em 2014 cravou esse arranjo. Qualquer governo futuro nasce refém dessa equação.
Três rotas possíveis — e nenhuma é fácil
Aliança ampla de centro-esquerda contra projeto autoritário da extrema direita. Exige costura lenta, novas lideranças e base social renovada.
Erosão institucional pela extrema direita, alterando as regras do jogo de forma irreversível. Risco alto de retrocesso democrático.
Estabilização conservadora, na economia e na política, comprando tempo mas adiando as fraturas de fundo.
Um “sucesso econômico extraordinário” mudaria o tabuleiro — mas está fora do radar para os próximos anos.
O que observar daqui para frente
O próximo mandatário assumirá com popularidade baixa, economia pressionada e Congresso empoderado. A incógnita decisiva não é quem vence a urna, mas como governo e Parlamento reagirão a esse cenário de partida.
Reorganizar forças políticas, construir alianças sociais inéditas e formar lideranças capazes de navegar nessa turbulência será a diferença entre evitar desastres duradouros — como o autoritarismo — e abrir caminho para uma refundação do progresso possível. O relógio corre contra.
