O resultado das urnas no domingo (25) dispara um rearranjo imediato das forças do Centrão, independentemente de quem subir a rampa do Planalto. A velocidade das articulações nos bastidores definirá o tamanho do poder real do próximo presidente — e a conta chega em 2027.
O cálculo de sobrevivência do Centrão
Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer, o bloco precisa se organizar para manter autonomia e limitar a influência do clã. Se Lula (PT) for reeleito, a missão é conter a oposição bolsonarista no Congresso. Em ambos os cenários, a fragmentação partidária perde espaço para blocos coesos.
As conversas já avançam nos gabinetes. Parlamentares antecipam votações sensíveis ainda em novembro e dezembro, antes da posse.
Pauta de fim de ano: o que entra na fila
A agenda legislativa prevê itens de alto impacto institucional. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já costura apoios para pautar:
- PEC do fim da reeleição — defendida por Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo PP; setores da esquerda não se opõem, a depender da redação.
- Mudanças na escolha de ministros do STF — limite de idade mínima e mandato fixo substituindo a vitaliciedade.
- Indicações para STF e TCU — Rodrigo Pacheco (PSD-MG) cotado para a Suprema Corte; vaga no Tribunal de Contas aberta para indicação presidencial.
O nó fiscal de 2027: herança bilionária
Quem assumir em janeiro herda um Orçamento pressionado. O governo Lula ampliou despesas permanentes com custo cheio no biênio 2025-2026, postergando o ajuste para o mandato seguinte. Do lado oposto, Flávio Bolsonaro prometeu expansão de benesses que não cabem no teto de gastos — nem no discurso de responsabilidade fiscal que vendeu ao mercado.
Analistas projetam déficit primário acima de 1% do PIB em 2027 sem medidas corretivas imediatas. O espaço para erro é zero.
Amazônia, Código Florestal e o risco comercial
Um dado novo muda a equação externa. Em discurso no Pará, Flávio Bolsonaro declarou que “o produtor vai fazer o que quiser com sua terra”, prometendo regularização fundiária ampla e revisão de restrições ambientais — como se o Código Florestal, que exige 80% de preservação na Amazônia Legal, não existisse.
Se a bancada ruralista tentar flexibilizar a legislação via Congresso, a reação europeia será imediata. O acordo UE-Mercosul, já frágil, pode travar. Barreiras não tarifárias a carne, soja e celulose deixam de ser ameaça e viram calendário.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão os primeiros 180 dias de governo: a velocidade da PEC da reeleição (termômetro do poder de Alcolumbre), a composição da equipe econômica (sinal de ortodoxia ou heterodoxia) e a primeira medida ambiental enviada ao Congresso (termômetro da relação com o agro e com Bruxelas). O tsunami fiscal não espera posse — ele já está no horizonte.
