Economia

Dólar fura R$ 5 e bolsa ignora eleição: o que o mercado sabe que você não sabe…

O dólar comercial fechou a sexta-feira (23) cotado a R$ 4,993, primeira vez abaixo de R$ 5 desde 9 de outubro. A moeda brasileira foi a que mais se valorizou entre as principais divisas globais, mesmo com o índice DXY subindo 0,19% lá fora.

Na semana, a divisa acumulou queda de 1,58%, revertendo a alta de 1,77% registrada nos cinco dias anteriores. Mas o movimento esconde uma tensão que vai muito além da eleição de domingo.

Por que o real brilhou enquanto o mundo temia

Investidores ajustaram posições na véspera do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O cenário de incerteza eleitoral, porém, não impediu que o real superasse pesos mexicano, chileno e colombiano no mesmo período.

A resposta está no fluxo. Estrangeiros mantiveram compras líquidas na B3 mesmo com o petróleo disparando mais de 3% — Brent a US$ 116,72, maior nível desde abril. A alta da commodity beneficia a balança comercial e atrai capital para ações de petroleiras e mineradoras.

O Ibovespa subiu 0,47%, aos 205.082 pontos, com volume de R$ 30,7 bilhões. Na semana, porém, o índice cedeu 0,17%. Em outubro, a bolsa ainda carrega valorização de 10,06%; no ano, 27,28%.

O efeito petróleo: número que muda a conta

A escalada no Oriente Médio não é ruído de fundo. É variável macroeconômica direta para o Brasil.

  • Brent (dezembro): +3,13% no dia, +6,24% na semana
  • WTI (dezembro): +3,82% no dia, +4,29% na semana
  • Irã ameaça retaliar bases dos EUA e navios no Golfo Pérsico
  • Confrontos houthis-Arábia Saudita elevam risco de interrupção de oferta
  • EUA autorizam uso da Reserva Estratégica para estabilizar abastecimento

Cada dólar a mais no barril melhora os termos de troca do Brasil. Mas também pressiona inflação global e juros longos nos EUA — o que, mais cedo ou mais tarde, volta a pesar no câmbio emergente.

O que o DXY não conta sobre o Brasil

O índice dólar (DXY) fechou a 101,799 pontos, em alta de 0,19%. Em tese, dólar forte lá fora deveria enfraquecer o real. Não aconteceu.

Três fatores explicam o descolamento: superávit comercial recorde em 2026, taxa Selic ainda atrativa em termos reais e fluxo de carry trade que não arrefeceu mesmo com a aproximação do corte de juros pelo Fed. O diferencial de juros Brasil-EUA segue acima de 6 pontos percentuais.

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.

Pequenos negócios e o câmbio invisível

Importadores de insumos industriais e varejistas de eletrônicos ganham fôlego imediato com o dólar abaixo de R$ 5. A formação de custo para o Natal 2026 fica mais previsível.

Por outro lado, exportadores de manufaturados — calçados, móveis, autopeças — veem margens comprimidas. A competitividade cambial que sustentou o setor no primeiro semestre evapora se a cotação se estabilizar abaixo de R$ 4,95.

O Banco Central monitora. Não houve intervenção direta nesta sexta, mas o estoque de swaps cambiais permanece em US$ 112 bilhões, munição suficiente para conter volatilidade excessiva.

O que observar daqui pra frente

Três variáveis ditam o próximo movimento: resultado das urnas no domingo (25), reação do Fed ao dado de inflação (PCE) de outubro nos EUA, e desdobramentos no Estreito de Ormuz. Se o petróleo sustentar acima de US$ 115, o real tende a seguir favorecido — mas o risco de alta nos juros longos americanos cresce. Para o empresário, a janela de câmbio favorável a importações está aberta. Para o investidor, a assimetria mudou: o risco agora é de apreciação excessiva, não de desvalorização.