O barril Brent superou US$ 114 pela primeira vez desde maio, atingindo US$ 114,70 nas negociações noturnas de quinta-feira. A escalada reacende pressões inflacionárias justo quando mercados digerem a liquidação nas big techs e a fragilidade dos títulos europeus.
A cotação subiu 1,35% em poucas horas, enquanto o WTI americano avançou 1,58% para US$ 101,04. O movimento não é isolado: o gás natural europeu saltou mais 4%, acumulando alta próxima de 30% apenas neste mês.
O gatilho geopolítico que ninguém ignora
A intensificação dos ataques dos houthis — grupo iemenita alinhado ao Irã — contra refinarias e aeroportos na Arábia Saudita disparou o prêmio de risco. As negociações de paz na região estagnaram, removendo qualquer expectativa de alívio no curto prazo.
Kit Juckes, estrategista-chefe do Société Générale, resume o cenário: “É certamente um mercado tenso”. A combinação de oferta ameaçada e demanda resiliente cria um piso elevado para as cotações.
Choque duplo: energia cara e tecnologia em queda
Enquanto o petróleo sobe, a Nasdaq despencou 2,9% na quinta-feira. O estopim foi a previsão de gastos de capital da Meta, muito acima do consenso, que expôs a ansiedade sobre o retorno do bilionário investimento em inteligência artificial — cada vez mais financiado por dívida.
O resultado foi uma corrida por proteção que levou os Treasuries de 10 anos ao melhor dia desde 2023, com o rendimento caindo 0,19 ponto percentual. Um movimento clássico de flight to quality turbinado por três vetores simultâneos:
- Medo de desaceleração do boom de IA
- Venda de títulos periféricos da zona do euro
- Alta das commodities energéticas
O enigma do dólar e a fratura europeia
Juckes aponta a contradição: com petróleo em alta e tecnologia em correção, o dólar “deveria estar mais alto”. A moeda americana, contudo, não acompanhou a intensidade do choque, sugerindo que investidores ainda apostam em pouso suave nos EUA.
Na Europa, a fratura exposta é mais profunda. O spread entre títulos franceses e alemães de 10 anos manteve-se em 1,7 ponto percentual — nível não visto desde a crise da dívida soberana. O rendimento francês fechou em 5,06%, ante 3,33% do Bund alemão.
O que observar nas próximas sessões
A estabilização de sexta-feira — Treasuries a 4,98%, Bunds a 3,33%, papéis franceses a 5,06% — pode ser apenas um respiro. Jim Reid, do Deutsche Bank, alerta: “As turbulências das últimas semanas vieram todas à tona de uma só vez”.
Três variáveis definirão a trajetória imediata: a resposta saudita aos ataques houthis, a temporada de balanços tech nos EUA e a capacidade da França de conter o alargamento do spread soberano. Para quem gere risco, o momento exige hedges assimétricos: proteção contra choque de oferta de energia sem abandonar posições em ativos de qualidade que já precificam recessão leve.
