A nova pesquisa Datafolha revela o menor saldo negativo do governo Lula 3 desde dezembro de 2022: apenas 3 pontos separam “ruim/péssimo” de “ótimo/bom”. O número surpreende analistas e reacende dúvidas sobre a real vantagem do adversário nas urnas.
Mas a eleição não está praticamente empatada? As intenções de voto ainda mostram frente confortável. O problema: histórico recente ensina que pesquisas subestimam a direita no Brasil.
Por que o saldo de aprovação importa mais que a intenção de voto
Avaliação de governo funciona como termômetro de reeleição. Quando o saldo negativo estagna — como ocorreu entre setembro e meados de outubro —, a transferência de votos trava. A melhora atual, ainda que sutil, quebra esse padrão.
Em 2022, Jair Bolsonaro chegou a esta altura com saldo negativo de 1 ponto. Lula 3 está a 3 pontos. A diferença parece pequena, mas o contexto é outro: a campanha petista mudou de marcha nas últimas três semanas.
Onde a virada aparece nos números
O Datafolha de 22 de outubro, comparado ao de 8 de outubro (pós-primeiro turno), mostra redução da diferença entre os candidatos em segmentos-chave:
- Jovens de 16 a 24 anos: queda de 12,6 pontos na vantagem adversária
- Nordeste: redução de 8,6 pontos
- Eleitorado com ensino médio: menos 8,2 pontos
- Interior do país: queda de 5 pontos
- Homens: redução de 5,8 pontos
- Renda até 2 salários mínimos: menos 4,2 pontos
Todas as variações beiram a margem de erro. Juntas, porém, desenham uma “tendênciazinha” que o mercado não pode ignorar.
O que mudou na campanha de rua e nas redes
O PT reativou a militância de base. Jovens foram às ruas. O “Exército de Lula”, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), replicou nas redes a estratégia de saturação digital usada pelo adversário em 2018 e 2022.
O governo adotou o “vale-tudo” comunicacional: peças agressivas, cortes de vídeo, linguagem de internet. Funcionou como choque de realidade para uma cúpula partidária que, desde a posse, subestimou a oposição e ignorou o centro político.
O erro de leitura que custou caro
Conselheiros palacianos assumiram que a volta de Lula seria “barbada”. Esqueceram que o bolsonarismo consolidou estrutura de partido de massa — digital, territorial e identitária. Ignoraram a inflação de alimentos, o endividamento das famílias e a barreira da linguagem acadêmica da esquerda para chegar ao eleitor comum.
O resultado: meses de estagnação nas pesquisas e perda de iniciativa narrativa.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem os próximos dias: (1) se a melhora na aprovação se sustenta ou reverte; (2) a taxa de comparecimento no Nordeste e entre jovens; (3) a capacidade de transferência de votos de lideranças regionais no interior.
Para o investidor, o sinal claro é este: a incerteza eleitoral aumentou. Cenários de “vitória decidida” saíram do radar. A volatilidade cambial e na curva de juros deve responder a cada nova pesquisa até 30 de outubro.
