Economia

O segredo do ex-ministro: R$ 2,1 milhões da Starlink e a porta giratória

Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, ao lado de logotipo da Starlink com valores de contrato em destaque
Empresa de ex-ministro Fábio Faria recebeu R$ 2,1 milhões da Starlink em contrato de consultoria estratégica.

Uma empresa ligada a Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações no governo Jair Bolsonaro, recebeu R$ 2,1 milhões da Starlink desde junho de 2025. O contrato prevê “monitoramento regulatório, análise de riscos e suporte estratégico”, mas a proximidade entre o ex-ministro e a operação de Elon Musk no Brasil começou muito antes, dentro do próprio gabinete ministerial.

Documentos mostram pagamentos que variam de R$ 129 mil a R$ 700 mil mensais entre outubro de 2025 e outubro de 2026. Faria não comentou os valores, alegando cláusula de confidencialidade. A relação, no entanto, deixa rastros públicos que conectam a atuação regulatória passada ao faturamento privado atual.

O contrato milionário e o que ele prevê

A prestação de serviços foi formalizada dois anos e meio após o fim da gestão Bolsonaro. Os comprovantes detalham atividades de inteligência regulatória e gestão de risco — serviços sensíveis para uma empresa que depende de licenças da Anatel e de decisões do Judiciário para operar.

  • Início: junho de 2025.
  • Período coberto pelos recibos: outubro de 2025 a outubro de 2026.
  • Maior parcela única: aproximadamente R$ 700 mil.
  • Último pagamento registrado: R$ 129 mil (outubro de 2026).

A descrição genérica dos serviços abre espaço para especulações sobre o real peso da influência política na operação da Starlink no país. Mas o efeito mais relevante aparece ao olhar para o histórico de quem assina o contrato.

A porta giratória: do gabinete para a consultoria

Enquanto ministro, Faria foi o principal articulador da entrada da Starlink no Brasil. Em 2021, trocou correspondências com Musk propondo encontro nos EUA e uso da tecnologia em escolas e na Amazônia. No mesmo ano, seu secretário executivo informou à SpaceX que o ministério já dialogava com a Anatel sobre a autorização.

A pressão decisiva ocorreu em 2022. Em audiência na Câmara, Faria admitiu ter reunido os cinco conselheiros da Anatel por videoconferência do próprio gabinete para contestar a exigência de manifestação da Agência Espacial Brasileira. A autorização saiu em janeiro de 2022. Em maio, organizou o encontro de Musk com Bolsonaro em Porto Feliz (SP).

O ex-ministro sempre sustentou que sua atuação visava beneficiar a concorrência no setor de satélites, não apenas uma empresa. Porém, a linha do tempo revela um intervalo curto entre a caneta regulatória e o primeiro cheque privado.

Passagem pela Skylink e a mediação com o STF

Antes de fechar o contrato direto com a Starlink, Faria tentou atuar na ponta comercial. Foi diretor-geral da Skylink — distribuidora dos serviços da Starlink — entre março e abril de 2024, chegando a investir R$ 250 mil no negócio. A saída teria sido motivada por potencial conflito de interesses com sua atuação no BTG Pactual, que tem participação em infraestrutura de telecom.

Mensagens apreendidas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, em 2024, revelam outra faceta da influência de Faria. Em abril daquele ano, no auge do embate entre Musk e o ministro Alexandre de Moraes (STF) por causa de ordens de remoção de conteúdo no X (antigo Twitter), Faria e Vorcaro tentaram intermediar uma conversa direta entre o bilionário e o magistrado.

A tentativa de mediação expõe o trânsito do ex-ministro nas esferas de poder que impactam diretamente o negócio de Musk no Brasil. Não é apenas conhecimento técnico; é acesso.

O que observar daqui para frente

O caso reacende o debate sobre “porta giratória” no setor de telecomunicações. Não há ilegalidade formal em ex-agentes públicos prestarem serviços para setores que regularam, desde que respeitados os prazos de quarentena — no caso, dois anos e meio.

Para investidores e empresários, o sinal de alerta é a concentração de risco regulatório em um único elo pessoal. Mudanças na Anatel, no Ministério das Comunicações ou no STF podem alterar o ambiente de negócios da Starlink rapidamente. Acompanhar a renovação de licenças, eventuais disputas tributárias e a tramitação de projetos de lei sobre soberania digital será essencial para precificar a solidez da operação no país.