A avaliação negativa do governo Lula caiu ao menor nível em quase dois anos, segundo Datafolha divulgado quinta-feira (22): a diferença entre “ruim/péssimo” e “ótimo/bom” fechou em apenas 3 pontos percentuais. O cenário sugere empate técnico com o adversário Jair Bolsonaro, mas um detalhe histórico impede qualquer comemoração antecipada no Palácio do Planalto.
Desde meados de setembro a aprovação estava estagnada. A melhora atual coincide com a reta final do segundo turno de 2022, quando a distância para o então presidente recuou 2,3 pontos em duas semanas. O movimento é real, mas esbarra em uma estatística incômoda para a esquerda.
O viés oculto nas urnas que as pesquisas não captam
Em 2018 e 2022, a direita apareceu nas urnas com mais votos do que indicavam os levantamentos de véspera. Não é uma lei da física, mas um padrão repetido. Se o viés se mantiver, o “empate” de hoje pode significar vantagem real para a oposição na hora do voto.
Além disso, a recuperação da imagem de Lula começou tardiamente. Avaliação ruim funciona como freio para reeleição; só agora o indicador saiu da inércia, justamente quando a campanha petista intensificou a presença nas ruas e nas redes.
Onde a diferença derreteu: recortes que explicam a virada
Os dados mostram uma compressão assimétrica da vantagem adversária. Veja os segmentos onde a aproximação foi mais forte entre 8 e 22 de outubro:
- Jovens de 16 a 24 anos: redução de 12,6 pontos percentuais;
- Nordeste: queda de 8,6 pontos;
- Eleitores com ensino médio: menos 8,2 pontos;
- Interior do país: recuo de 5 pontos;
- Homens: diferença caiu 5,8 pontos;
- Renda até 2 salários mínimos: aproximação de 4,2 pontos.
Todas as variações flertam com a margem de erro, mas a consistência direcional aponta tendência, não ruído.
O “Exército de Lula” e a adoção do vale-tudo digital
A virada não foi espontânea. O PT mobilizou militância jovem para as ruas e replicou a máquina de guerra digital do adversário. O deputado André Janones (Rede-MG) comandou o “Exército de Lula”, estrutura que espelhou táticas bolsonaristas: disseminação em massa, confronto direto e uso agressivo de algoritmos.
O próprio candidato aderiu ao “vale-tudo” informacional para converter votos. A estratégia funcionou para estancar a sangria, mas expôs a fragilidade anterior: o partido ignorou por dois anos o centro político, a linguagem do povo comum e o universo digital.
O erro de cálculo que custou caro
A cúpula petista subestimou três variáveis críticas: a força do bolsonarismo como “partido de massas” à direita, a incapacidade do discurso tradicional de esquerda dialogar com as dores econômicas reais (inflação, dívida, trabalho informal) e a mediocridade de parte do entorno governamental.
O choque de realidade veio na derrota do primeiro turno. Só então o lulismo redescobriu a política de rua, a guerra de narrativas online e a necessidade de falar de preço de comida, não só de democracia abstrata.
O que observar nas próximas horas
O termômetro agora é a capilaridade da mobilização física versus a eficiência da máquina digital adversária. Se a tendência de queda na rejeição de Lula se confirmar nas próximas pesquisas — já fora da margem de erro —, a narrativa de “virada” ganha lastro. Caso contrário, o viés histórico de 2018/2022 voltará a ditar o favoritismo real. O Planalto sabe: o jogo virou, mas não acabou.
